terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Carnaval no jardim

Flores, Arthur (que nem veio pra almoçar mas não resistiu, Marcos e Neide)

No domingo, repetindo pela terceira vez o que eu já chamo de tradição desde a segunda, nos encontramos Neide, Marcos, Flores e eu para ao menos um dia juntos durante o carnaval. Nos anos anteriores fomos ao sítio deles carregados de plantas para enriquecer a diversidade por lá - plantas são o nosso assunto. Desta vez eles vieram a Holambra, no nosso sítio, carregados de comidinhas, folhas e flores secas para chá, frutinhas para sobremesa, maracujá para semear… comidas são o assunto deles.

Não houve muito planejamento, mas eu e Neide trocamos por celular algumas mensagens sobre fazer macarrão caseiro colorido. Minha irmã Mari, a Mariana Valentini da Brodo Rosticceria, fez lindas gravatinhas coloridas para o carnaval que eu só vi pelo Instagram mas que me inspiraram bastante. Comer é uma delícia, e comer comida bonita é melhor ainda. Em boa companhia então…

Pois ficou combinado que almoçaríamos massa. A Neide, sempre muito prática e animada, ofereceu de trazer a máquina e flores azuis de Clitoria ternatea para testarmos a cor na comida. Eu botei na roda a primeira moranga colhida este ano no jardim e beterrabas, assim teríamos três cores no prato.


Só que das caixas vindas da cozinha do blog Come-se saíram muito mais do que ingredientes para chás e macarronada. Veio uma tigelona de coxas de frango para os que comem carne, uma boa fatia de melancia, um punhado de siriguelas, maracujás de duas espécies para sucos e mudas, uma metade de limão siciliano que só hoje encontrei esquecida na geladeira… É interessante como para quem trabalha com comida é tudo muito simples. Rapidinho junta-se uma coisa com outra com outra e com outra e vai a assadeira cheia para o forno. O processador de alimentos (que também veio na mala) em um instante transforma tomate fresco com melancia e temperos em um delicioso gazpacho pra comer como entrada. E enquanto eu fico pensando se é melhor juntar dois disso com três daquilo ou ao contrário, a Neide já bateu a massa de abóbora e eu nem vi como ela fez.

O gazpacho ficou delicioso. Acho que
quero ter um processador de alimentos...

Uns minutos depois já estavam prontas três bolas de massa: a azul clarinha, colorida com flores de Clitoria ternatea; a amarela, feita com abóbora moranga e uma roxinha linda, de beterraba. O próximo passo era instalar a máquina numa superfície grande pra trabalhar, e a despeito das moscas e dos cachorros de plantão, Neide escolheu montar a traquitana toda lá fora, na grama, sob a sombra da Teca.

No melhor estilo gambiarra, com cadeiras viradas sobre a mesa e um pedaço grande de cano de pvc, foi montado um varal para secar os fettuccines, e num minuto em que deixei a cozinha para ir ao banheiro ouvi risadas e fui chamada às pressas. Corre, vem fotografar! Não sei muito bem como aconteceu, mas em questão de segundos a primeira leva de massa de abóbora escorregou do varal de cano e foi parar na grama, e em mais um piscar de olhos os três cachorros devoraram aquilo tudo.


Depois das melhorias no varal para evitar futuras perdas vieram lindos fettuccines azuis e roxos combinando com a camiseta da cozinheira, e comemos nossa macarronada com molhinhos de manteiga e sálvia e de tomate, junto com as coxas de frango e fatias de abóbora assadas com temperinhos da horta. Isso é que é almoço de domingo!



Marcos, o companheiro que acompanha,
espantava moscas e ajudava na produção da massa





Hoje acordei pensando em contrastes.
A massa foi a Neide que fez e o molho fui eu, com tomates pelados de lata mas quase sem processamento industrial. A manteiga era de pacote mas a sálvia é produção da casa. Os corantes da comida eram totalmente naturais: beterraba, abóbora do quintal e flores da horta da Neide. Comemos na mesa sobre a grama, debaixo de uma árvore bonita, com moscas e cachorros por perto, sem muitos problemas.

Agora pense em alguém que more num apartamento. Pode ser você, pode ser eu, que já fui muito urbana. Essa pessoa acorda lá no alto, décimo segundo, vigésimo quinto andar. Olha pela janela só pra saber se faz sol ou se chove e se enfia rápido numa roupa, café solúvel numa mão, bolacha de pacote na outra. Pega o elevador com o vizinho que nem responde o bom dia e aperta o G3, a garagem mais do alto. Entra no carro, afivela o cinto e logo se entala no trânsito; cinquenta minutos pra chegar ao trabalho. O prédio de escritórios fico no topo de um shopping, daqueles com muitos níveis de garagem. De novo o G3. Estacionamento cheio, vaga apertada, elevador lotado, a mesa tomada de pilhas de papel e um monte de e-mails para responder. Na hora do almoço a praça de alimentação salva: um salgado frito com refrigerante diet, porque não vai dar tempo de almoçar direito. De tarde telefone, computador, reunião no ar condicionado, cafezinho da máquina no copinho plástico, mais computador, mais telefone… Acaba o expediente e o dia termina como começou, só que ao contrário: mesa ainda tomada de papéis e os e-mails a responder, elevador lotado, vaga do carro apertada, fila pra passar pela cancela do estacionamento, uma hora e vinte no trânsito até chegar em casa, G3, elevador com os vizinhos… e chega o momento relax: um banho quente (mas rápido por causa do rodízio de água), pijaminha de malha feito de fio de garrafa PET (sustentável) e um jantarzinho leve (salada hidropônica com nuggets de vegetais e um chá gelado, daqueles de misturar o pozinho na água. Sabor pêssego).

Essa pessoa (eu, você, alguém da sua família) não colocou o pé na Terra! Não digo descalço, na terra terra, aquela que tem minhocas, falo do planeta Terra! O dia inteiro se passou no alto, em andares de cimento. Os deslocamentos foram dentro do carro, as garagens eram elevadas, o almoço foi na praça de alimentação do shopping... Essa criatura não pisou numa calçada que seja, muito menos em um só metro quadrado de grama. Capaz que não tenha reparado no céu, não escutou um pio de pomba e nem comida de verdade comeu. Nem bebida de verdade bebeu! E pelo que me consta não inventei nenhum absurdo, nada que eu, você e seus conhecidos não tenhamos feito muitas e muitas vezes em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte…

Antes que você me chame de Pollyanna, deixe-me dizer que não acho que tenhamos todos que nos mudar para ecovilas, plantar nossa própria comida, costurar nossas próprias roupas, vender nossos carros… Adoro dirigir, uso computador todos os dias, tenho pilhas e pilhas de papel sobre a mesa e dezenas de e-mails a responder, mas tenho tentado andar pelo caminho do meio. Planto horta (quando morava em São Paulo plantava em vasos), sento na grama com os cachorros no colo, como comida de verdade feita por mim em oitenta por cento das refeições, boto um tênis e vou correr na rua e tento, diariamente, melhorar minhas escolhas. Já morei em diversos lugares diferentes, já trabalhei com coisas saudáveis e com insalubres também, e a cada dia que passa acho mais importante e prazeroso o contato diário com a Terra. E mais: não conheço ninguém que tenha feito o caminho contrário sem ao menos cultivar um plano de, no futuro, voltar às raízes.

É um caminho sem volta. Quanto mais a gente planta, mais quer plantar. Quanto mais pensa na comida, mais se dedica a fazê-la saudável. Quanto mais põe a mão na terra, senta na grama e corre na rua, mais sente falta disso tudo quando por algum motivo não pode fazer. E tem mais uma coisa bem interessante: a gente começa a se relacionar com pessoas que fazem o mesmo, que pensam igual, que andam pela mesma trilha sem querer voltar pra trás. É o caso da minha amizade com a Neide. Quando eu morava em São Paulo, trabalhava muito perto da casa dela e era um pouco aquela pessoa que não tinha tanto contato com a Terra, a gente não se conhecia. Agora que ficamos amigas, pergunta se eu quero passar um Carnaval sem ela???

23 comentários:

  1. Olá
    Sinto muita falta da "terra" aqui em São Paulo, mas faço de tudo para estar em contato com a natureza indo a parques, tomando cafés no interior de SP..nossas viagens tem sempre cheiro de mato.
    Me pareceu muito agradável seu feriado de carnaval com amigos.
    Ótima semana
    Beijos,
    Adriana Alves.
    www.viagenssaboresetc.blogspot.com.br

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  2. Márcia Carvalho de Souza18 de fevereiro de 2015 14:22

    Carnaval delicioso!! Quero um desse pra mim!!

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  3. Parabéns!Ainda chego nessa perfeição! O seu come-se e ótimo, amo!!!

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  4. oi Ju!

    Eu estou bem no processo querosaircorrendodeSP! Cada vez que tenho a chance de ficar um pouquinho que seja em contato com a Terra, o planeta, a vida vidamesmo, cada pequeno respiro torna a vida aqui menos suportável.
    Estou mexendo os meus pauzinhos!
    Mas poder acompanhar um pouquinho já traz um conforto emocional, desse de saber que não estou sozinha nas ideias e vontades. Mesmo que a gente nunca chegue a passar um carnaval juntas ;)

    Bela postagem, lindas fotos,
    viva a Neide! :D e viva a Ju!

    beijo

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  5. Some não Juliana, você nos faz tão bem!
    Sandra Pacheco

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  6. Juliana, tava sentindo falta das suas postagens... gente com sensibilidade tá em extinção. concordo contigo, aqui em casa também dividimos espaço com as moscas e as nossas cachorras, comemos do limão, do manjericão, da taioba, da mandioca da nossa própria horta em um terreno digamos que pequeno aqui de Curitiba. é bom sabermos que tem mais gente que pensa assim. um abraço. Elisabete

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  7. Juliana, você disse tudo que muita gente gostaria de saber dizer. Tanta gente vivendo no automático, sem ser feliz e sem entender o motivo. Talvez esteja faltando terra. O povo tem estado muito no ar.

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  8. Oi Juliana, amei te conhecer e foi através da Neide. Já fui ficando e seguindo. Cresci em São Paulo, depois morei 18 anos na praia e, agora estou há 15 no mato, com alguns probleminhas que tento driblar. Mas aqui é onde sempre quis morar, sou meio atrapalhada, mas tento criar galinhas (que o cachorro do vizinho já matou mais de 20) e montar minha horta, que as formigas levam tudo. Tá difícil de acertar, mas sou muito feliz aqui, fazendo uma coisa ou outra para melhorar. Aprendo muito com a Neide e consulto sempre que tenho dúvida, agora, com certeza, já tenho mais um canto para procurar, obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  9. Ahhhhh, até que enfim uma nova postagem! E a gente aqui cheia de saudades!

    Esse é um movimento que tenho desejado muito fazer...Ainda mais agora, com um pimpolho a caminho. Eu fui nascida e criada em apartamento, e queria muito hoje, ter um pedaço de terra pra criar a cria com o pé no chão, subindo em árvore, enchendo a boca de terra e sei lá mais o que... Cresceríamos juntos nisso porque essas coisas nunca tive!

    Não sei se você vai lembrar de mim, mas eu te perguntei uma vez sobre umas suculentas que melaram (coitadas, eu as afoguei), quando morava num cortiço reformado de 1893 no centro do Rio... Lembra? Agora moro num apartamento antigo também, no centro do Rio também, e não mato mais suculentas afogadas, yey!!! Não vi mais atualizações da rolinha, o que houve com ela? Não some não... a gente gosta tanto de ler você!

    Beijos!

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  10. Leitores queridos,
    bom é escrever e ter esse retorno tão carinhoso.
    Fico feliz de saber que tem gente tão legal aí do outro lado. Obrigada!

    JuJu,
    fiquei emocionada com seus comentários e com seus vivas. Você está desde já convocada para o próximo carnaval, mas se puder também venha antes, com ou sem Neide. Quando digo que basta a gente começar a mexer os pauzinhos para uma vida diferente que as pessoas iguais vão se aproximando, me refiro a isso. Gente como eu, você, a Neide e tantos outros que estão no mesmo caminho fazendo força para se conhecer, se encontrar, conviver…
    Soube que já andou passando vontade no sítio da Neide. Venha conhecer os lados de cá também. Quem sabe?
    Um beijo grande e seja sempre muito bem vinda. A Verde Casa é sua!

    Sandra Pacheco e Elisabete, muito obrigada pelo carinho. Um beijo!

    Gilda, que boa sacada: está faltando terra, o povo anda muito no ar! Um beijo!

    Maria Teresa, vida em sítio não é fácil, hein? Sei bem do que está falando. E sua história das galinhas com o cachorro do vizinho me inspirou para um post. Aliás, mais um, porque já escrevi sobre isso aqui. Você leu? Se não, procure no campo de busca por um post que se chama Imprevistos rurais e a vontade de criar galinhas. Seja sempre muito bem vinda e volte sempre!

    Priscila, que delícia seu comentário, muito obrigada!
    Lógico que lembro de você. Que bom que não mata mais suculentas e que gostosa a notícia da gravidez. Achei bonito você dizer "cresceríamos juntos nisso porque essas coisas nunca tive". Torço para que um dia isso aconteça mesmo.
    A rolinha foi para o jardim viver a vida dela depois de muitos mimos dentro do escritório. Mas de tão mimada estava com dificuldades de aprender a ser rolinha, então um dia resolvi que teríamos que nos apartar uma da outra e lá foi ela para o alto da árvore. E de lá voou e não vi mais. Não foi um dia muito fácil - pra mim e talvez para ela também. Vamos ver se um dia ainda conto em post o fim dessa história.
    Muito obrigada pela fidelidade de ainda me ler e pelo comentário tão animado.
    Um beijo grande!

    Juliana.

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  11. Oi, Juliana! Tudo bem? Frequento o Come-se e sempre passo por aqui para pegar algumas dicas. Somos quase vizinhas, moro em Jaguariúna. Queria fazer uma pergunta meio fora de contexto. Você sabe onde posso comprar terra preta/adubada por aqui? Um caminhão ou alguns metros? Desculpe por fazer a pergunta aqui. Um abraço! Karen

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  12. Uau! Belo blog em tudo: conteúdo, aparência, tema. Parabéns!

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  13. Quase um ano... Ô, saudade dos seus posts!!!! =(

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  14. Pode passar a receita do macarrão. Abraço.

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  15. Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens
    é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
    Eu também tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita
    Ficarei radiante,mas se desejar seguir, saiba que sempre retribuo seguido
    também o seu blog. Deixo os meus cumprimentos e saudações.
    Sou António Batalha.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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  16. Gostei demais do teu blog. Me identifiquei com essa natureza toda. Estou na dúvida se tens atualizado...pq percebo q a última postagem é de 2015.

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  17. Este comentário foi removido pelo autor.

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  18. Poxa, achei esse blog esses dias, procurando artigos sobre as praguinhas que minha hortinha recém criada estava tendo e achei tão maravilhoso.. Uma pena que anda desatualizado, gostaria de saber como anda tudo, e a horta. E queria mil vezes agradecer por um dia você ter dito a ideia de criá-lo e compartilhar todas essas maravilhosas experiencias conosco! :)

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  19. Adorei o blog!! Sinto muito que não está atualizado.

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