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segunda-feira, 11 de março de 2013

O bá obá!


O bá obá! Germinou!

Claro que foi da Neide, do Come-se, que ganhei sementes de Baobá (Adansonia digitata) vindas diretamente do Senegal. Me foram dadas com a ressalva de que talvez não germinassem, afinal chegaram de viagem há quase um ano e passaram uma boa temporada na geladeira, mas por que não tentar?

O Baobá é uma árvore diferentona, de características curiosas; chama a atenção pelo tronco bem gordo e por passar boa parte do ano sem folhas. Outro dia ouvi alguém dizer "parece que ela está enfiada na terra de cabeça pra baixo, com as raízes pra cima". E parece mesmo.

O gênero Adansonia tem somente oito espécies; seis delas originárias da ilha de Madagasgar, uma da África e outra da Austrália. Todas têm características bem semelhantes mas detalhes marcantes que as diferenciam. A Adansonia grandidieri, por exemplo, costuma ter o tronco afunilado, arredondado e bem alto, com uma copinha pequena lá em cima:

Adansonia grandidieri   Foto: Thomas Pakenham






Já a Adansonia za tem o tronco mais baixo, bem gordo e a copa mais volumosa:

Adansonia za   Foto: Thomas Pakenham

Este exemplar, especificamente, bifurcou bem perto do chão e as duas partes se entrelaçaram, por isso é chamado de "Les Baobabs Amoureux" (Os Baobás Amantes). Está próximo a Morondava, na ilha de Madagascar, e foi fotografado por Thomas Pakenham para o livro Remarkable Trees of the World.

E o Adansonia digitata, das sementes da Neide, são os da foto abaixo, fotografados por ela na Ilha de Goré, perto de Dakar.

Ilha de Goré   Foto: Neide Rigo

No Brasil é possível encontrar alguns dessa espécie no Rio de Janeiro, em Maceió e em Recife. Desse de Recife, da Praça da República, diz-se que serviu como inspiração para Antoine de Saint Exupéry escrever a história O Pequeno Príncipe.

Em princípio os da espécie digitata parecem bastante com os da espécie za e também com as paineiras nativas do Brasil. Não por acaso: todos fazem parte da família Bombacaceae, portanto são parentes. Além das semelhanças de tronco e copa, ambos produzem frutos em forma de granada, de casca grossa como um cupuaçu e recheados de bolinhas por dentro.

Sementes de baobá com mucilagem. Quando se abre o fruto é isso que está lá dentro, só que um pouco mais organizado

Foi me baseando nessas semelhanças que decidi semear o baobá como fazemos com as paineiras, então coloquei as sementes de molho em água por algumas horas e em seguida, sem tirar quase nada da mucilagem, enterrei cada uma em um vasinho com terra bem solta. O quanto se enterra é o mesmo que o tamanho da semente. Essas, como são bolinhas de quase 1 cm, foram enterradas quase 1 cm abaixo da superfície. Veja mais sobre isso aqui.

As primeiras germinações aconteceram em 15 dias, e isso animou a Neide a me dar mais um tanto de sementes guardadas na geladeira. Depois ainda ganhei um terceiro tantinho, e se não me engano veio até um quarto.

O interessante é que essa história começou há quase quatro meses e até hoje tem baobá preguiçoso germinando. Na casa da Neide também. No começo ela achou que tinha errado a mão na semeadura, já que os meus estavam nascendo e os dela não, mas semanas depois veio a notícia de que as sementes que ela enterrou muito antes das minhas tinham começado a nascer também.

Hoje tenho mudas de diversas idades. As mais novinhas acabaram de sair da semente,


outras já têm 15 cm de altura,


 outras já medem quase meio metro,


e as mais velhas já começaram a produzir as folhas compostas, digitadas, como grandes mãos com cinco dedos.


Falta agora arrumar um lugar para plantar alguém que vai crescer como um monstro e pode chegar a 20 metros de altura e 5 metros de diâmetro. Nove pessoas para abraçar o tronco. Incrível.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O primeiro Terra Madre Day a gente nunca esquece


Ontem foi o Terra Madre Day, dia marcado pelo Slow Food para celebrar a terra e o que ela nos da. Muitos eventos aconteceram simultaneamente em todo o mundo, e em São Paulo teve Dia de Campo Urbano - identificar e colher, cozinhar e comer, promovido pela Neide Rigo.

Um bando de 14 foragidos do trabalho saiu, em plena segunda-feira, para caminhar pela Lapa com a missão de identificar e colher espécies comestíveis que nascem pelas ruas do bairro. Guiados pela Neide e com um pouco de colaboração e experiência de cada um do grupo (com ênfase nos incríveis conhecimentos do Guilherme), enchemos nossas sacolinhas com folhas, frutos, bulbos, legumes e ervas medicinais e aprendemos muito, principalmente no que diz respeito às possibilidades de um paisagismo mais útil e caprichado em qualquer grande cidade. Se haverá plantio de árvores, por que não frutíferas? Como trepadeiras para fechar muros e grades, por que não maracujás?

Grumixama amarela (Eugenia brasiliensis)


Vassoura-relógio (Sida rhombifolia)

Devidamente uniformizados com nossos crachás adesivos do Terra Madre Day, conhecemos a face "roça" da metrópole, lugar onde nascem mangas, bananas, tamarindos, limões cravo, graviolas, inhames, batatas-doce e dezenas de outros alimentos, e onde crescem também muitas variedades de matos comestíveis e ervas medicinais que pisamos em cima sem nem desconfiar que existem. Na Europa, por exemplo, vende-se dente-de-leão (Taraxacum officinale) em feiras livres, enquanto aqui no Brasil ele nasce espontaneamente em cada fresta e rachadura de calçada por onde andamos. Colhemos um bom tanto deles, para a salada.

Dente-de-leão (Taraxacum officinale)

Pelo caminho também encontramos feijões, uma linda espécie de mini pepininhos silvestres...

Vagens de feijão de espécie não identificada

Mini pepinos comestíveis (Melothria pendula)

... e cúrcumas, plantadas pela Neide e algumas crianças em uma pequena praça mal cuidada mas arborizada com lichias e uvaias, onde, até hoje, certamente pouquíssima gente parou para reparar e experimentar. Pois ali cavamos e desenterramos lindos bulbos amarelo-ouro com cheiro de terra para colorir o almoço.


No final do passeio, bolsas e bolsos passeavam cheios de plantas, frutos e matinhos que virariam nossa refeição.

Fábio e sua muda de café "plantada" no bolso

Buquê de sementes de maria-gorda (Talinum paniculatum)

Tudo foi colocado sobre a mesa da casa da Neide e, junto com os ovos doados e as laranjas que levei de presente na semana passada (deste post aqui), fizemos um belo conjunto de alimentos coletados por nós. Nada de compras, muito menos de comidas processadas. Tudo fresco, natural e recém-colhido nas ruas da quinta maior cidade do mundo. Pura celebração à terra.


Com 28 mãos na massa, em pouco tempo tínhamos muito suco de laranja, de tamarindo e de manga verde (espetacular, batido com água e um pouco de açúcar) e alguns pratos em andamento.


Folhas de caruru enfeitaram de verde o risoto de arroz integral e feijões que já tinha sido pré-preparado pela Neide, bananas verdes viraram nhoque romano e também um delicioso purê inventado na hora por ela e decorado com as sementes de maria-gorda do Guilherme, e as mangas, igualmente verdes, foram transformadas em chutney cru, temperado com pimenta, cebola, cominho e sementes de coentro. Na salada verde nem uma única hortaliça convencional, mas uma coleção de matos comestíveis: serralha, caruru, dente-de-leão, mentruz, maria-gorda e tomatinhos-cereja, esses últimos também enquadrados na categoria "mato" porque nasceram por aí, sem terem sido plantados. E teve também molho pesto de buva (Conyza bonariensis), feito segundo a receita da versão tradicional, mas substituindo o manjericão pela erva espontânea. Foi invenção da Cenia Salles, líder do convívio Slow Food São Paulo, e ficou saboroso, um pouco picante, perfeito.


Às quatro da tarde, quando deixei a festa que ainda entrava na etapa da sobremesa, me despedi de 13 pessoas felizes, que com certeza se lembrarão para sempre do nosso primeiro Terra Madre Day. Que venham muitos mais, e que possamos nos juntar novamente para celebrar uma alimentação rica, bonita, saudável e repleta de histórias para contar.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Couve em vaso

Couve rendada, uma delícia refogadinha com alho

Hoje o dia está corrido e para o almoço, pronto na geladeira, eu só tinha arroz e feijão. Sem problemas, adoro e como todos os dias com gosto, mas faltavam coisinhas pra dar uma incrementada. Nessa hora, ter uma horta em casa faz toda a diferença. Desde o começo das minhas plantações, nunca tive a pretenção de comer só o que produzo. Uma horta grande e variada que possa prover uma casa de vegetais em quantidade suficiente para dispensar a compra de horti fruti dá bastante trabalho e exige mais tempo e dedicação do que tenho disponíveis atualmente. Por isso, desde o começo, alterno culturas pensando no que gosto de ter como acompanhamento e no que é prático para complementar uma refeição, fazer um molho de macarrão, coisas assim.

Mas o que tenho colhido tem sido suficiente para comer bem variado e, muitas vezes, ainda sobra para presentear vizinhos e amigos. É o caso dos pés de couve. Quando me mudei para o sítio ganhei da D. Leonia seis mudinhas de uma linda variedade de couve toda recortada que batizei de couve rendada, mas quando ainda morava em São Paulo já tinha feito experiências super bem sucedidas com couve comum em vaso. Ambas são plantas fáceis de cultivar mas exigem alguma paciência e dedicação no quesito combate a pulgões.

Na verdade toda a família das couves - couve manteiga, couve-flor, brócolis, repolho - tem esse inconveniente. Vira e mexe as folhas são atacadas por pulgões, que sugam a seiva da planta e vão minando sua energia até a morte. São bichinhos brancos, cinzas ou pretos que aparecem na face inferior da folha, todos juntinhos, trabalhando em grupo. Esse ataque pode acontecer em qualquer época do ano, mas é mais frequente durante o calor intenso e quando faltam regas suficientes. Para combatê-los, o velho e bom óleo de neem resolve. Veja o post sobre pragas nas plantas.

Uma opção de prevenção ou mesmo de combate, quando a situação ainda não é grave, é esguichar as folhas por baixo com um jato forte de água, assim os pulgões se desprendem. Retirar do pé as folhas velhas, que não serão mais usadas porque estão feias, também ajuda a manter a couve livre de pragas, porque faz com que a planta fique bem arejada, sem folhas emboladas, que são o ambiente perfeito para pulgões se esconderem.

No mais, o cultivo é fácil, sem surpresas, e a colheita é recompensadora. Hoje tenho cinco pés de couve rendada e colho cerca de 15 folhas a cada duas semanas. Quando tinha só uma, em vaso, colhia 3 ou 4 folhas a cada duas semanas, que são o suficiente para duas pessoas. E o pé dura muitos meses, acho que mais de ano. Você já começa a colher folhas quando ele ainda é baixinho, com 30 cm de altura, e com o passar do tempo ele vai ficando alto, chega a mais de 1,5 metro.

Se quiser experimentar ter uma couve no vaso, plante em um que tenha, no mínimo, 40 cm de altura. Capriche na escolha da terra, bem fértil, adubada, para garantir uma couve saudável e bem bonita. E coloque-o num lugar onde bata pelo menos 4 horas de sol todos os dias. As regas devem ser frequentes para manter a terra sempre úmida. Se secar, sua couve vai murchar rapidamente.

É possível encontrar mudinhas prontas para o plantio no vaso em boas lojas de jardinagem. Ou então faça as suas a partir de sementes, seguindo o passo a passo do post como fazer uma sementeira.

Antiga couve comum, cultivada em vaso no quintal de São Paulo

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A primeira abobrinha a gente nunca esquece

A primeira abobrinha, colhida com a tesoura de poda psicodélica que ganhei da Mari

Hoje no almoço vai ter lindeza no cardápio: a primeira abobrinha italiana da horta. As sementes foram postas para germinar há cerca de um mês, e nos oito pés que vingaram já tenho três ou quatro grandes e gordinhas para colher. Essa da foto foi a selecionada e vai já para a panela.

O pé de abobrinha visto de cima. Cabe aí na sua casa?

Aliás, para os adeptos das hortas em pequenos espaços, estou fazendo uma experiência de abobrinha italiana em vasos, já que meus pés plantados nos canteiros da horta estão ocupando uma área de aproximadamente 80 x 80 cm cada. Por isso acho que a varanda de um apartamento ensolarado pode sim produzir alguns quilos de abobrinha.

Enterrei sementes em dois vasos grandes, um deles um pouco mais ao sol, o outro mais à sombra, e nos dois já nasceram os brotos. Dentro de um mês, mais ou menos, saberemos se isso vai dar certo. Tem todo o jeito de que vai, então acho que, enquanto faço meus testes aqui, você poderia também fazer os seus aí. Assim, com diversas situações e amostragens, a experiência fica quase científica e podemos ensinar mais gente a plantar abobrinha em casa.

Os dois brotos de um vaso...

...e os três do outro. E agora, cadê a coragem de arrancar os menores e deixar só um em cada vaso?

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O caso estranho de Percy Schmeiser

Feijões espírito-santo orgânicos que ganhei da Neide, que por sua vez ganhou da Laura, do Sítio Gralha Azul





Ainda na onda do Slow Food e no tema "somos responsáveis pelo que acontece à nossa volta", transcrevo abaixo um trecho do livro O mundo é o que você come, da americana Barbara Kingsolver. É a inacreditável história do que pode acontecer quando falta bom senso e preocupação com o interesse coletivo na cabeça do ser humano, e de como pessoas (e nações) conscienciosas podem reverter absurdos trabalhando unidas.

O caso estranho de Percy Schmeiser

Em 1999, um pacato fazendeiro de meia-idade, de Bruno, Saskatchewan, foi processado pelo maior produtor de sementes biotecnológicas do mundo. A Monsanto Inc. alegou que Percy Schmeiser causara-lhe danos no valor de 145 mil dólares, por ter genes patenteados por ela em algumas das plantas de canola em seus quinhentos hectares. Não se alegava que Percy havia efetivamente plantado as sementes, ou mesmo que ele as tivesse obtido ilegalmente. O argumento da Monsanto era simplesmente que as plantas na terra de Percy continham genes pertencentes a ela. O gene, patenteado no Canadá no começo da década de 1990, dá às plantas de canola geneticamente modificadas (GM) a força para resistir à pulverização com herbicidas glyphosate, tais como o Roundup, comercializados pela Monsanto.

A canola, uma variedade cultivada da semente de colza, é uma das três mil espécies da família das mostardas. O pólen da mostarda é transferido por insetos, ou pelo vento, por uma distância inferior a um quilômetro. Será que o gene patenteado viaja junto com o pólen? Sim. Será que as sementes são viáveis? Sim, e têm uma vida útil de até dez anos. Se sementes de anos anteriores permanecerem no solo, é ilegal colhê-las. Ademais, se qualquer uma das sementes em um campo contiver genes patenteados, é ilegal guardá-las para o uso. Percy guarda sementes de canola há cinquenta anos. A Monsanto abriu um processo para proteger sua propriedade intelectual que foi levada até as plantas dele. As leis protegem a posse do próprio gene, não obstante o modo de condução. Por causa do fluxo de pólen e da contaminação das sementes, os genes da Monsanto estão fortemente presentes na canola canadense.

Percy perdeu a disputa na justiça: foi declarado culpado pelo Tribunal Federal do Canadá, sendo a decisão mantida por uma margem estreita no tribunal de recursos. O Supremo Tribunal do Canadá manteve a decisão por maioria apertada (cinco a quatro), mas sem compensação para a Monsanto. Essa caso assombroso atraiu a atenção para os problemas associados à disseminação dos cultivos GM. Fazendeiros orgânicos de canola em Saskatchewan estão em litígio contra a Monsanto e a outra companhia, a Aventis, por impossibilitarem o cultivo de canola orgânica pelos agricultores canadenses. A Associação Nacional dos Agricultores do Canadá solicitou o embargo temporário de todos os alimentos GM. A questão ultrapassou as fronteiras do país. Quinze países proibiram a importação de canola GM e a Austrália baniu toda a canola canadense devido à contaminação inevitável, tornada óbvia pelo caso judicial da Monsanto. Os fazendeiros estão preocupados por correrem o risco de serem responsabilizados, assim como os consumidores, com relação à escolha. Vinte e quatro estados americanos propuseram ou aprovaram leis diversas para bloquear ou limitar produtos GM específicos, atribuir responsabilidade pelo fluxo aéreo de GM aos produtores de sementes, defender o direito dos fazendeiros de guardar sementes e exigir que os rótulos de sementes e produtos alimentícios indiquem ingredientes GM (ou então a sua ausência, com os rótulos "não contém GM").

O governo dos Estados Unidos (sempre tratando com carinho os interesses empresariais) tomou providências para driblar essas medidas pró-consumidor. Em 2006, o Congresso aprovou a Lei da Uniformidade Nacional de Alimentos, que derrubaria mais de duzentas leis estaduais de rotulagem e de segurança dos alimentos que diferem das federais. Dessa forma, prevaleceria a proteção mais débil ao consumidor (embora sejam uniformemente débeis). Aqui está uma dica sobre quem apoiou e de fato se beneficia dessa lei: o Instituto Americano de Comida Congelada, ConAgra, Cargill, Dean Foods, Hormel e a Associação Nacional de Criadores de Gado. Ela foi contestada pela Associação dos Consumidores, Sierra Club, Associação de Cientistas Preocupados, Centro de Segurança dos Alimentos e por 39 procuradores-gerais estaduais. Manter as patas "intelectuais" da GM longe de nossos corpos e de nossa terra é responsabilidade dos consumidores que exigem informações completas sobre o que contém nossa comida.

Para obter outras informações, visite www.biotech-info.net ou www.organicconsumers.org

Por Steven L. Hopp

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Grupos, movimentos e a Horta das Corujas

Foto emprestada do blog da Horta das Corujas

Numa entrevista de 2008 ao Cambridge Programme for Sustainability Leadership, Manfred Max-Neef, autor do livro Human Scale Development (Desenvolvimento na Escala Humana - sem tradução para português), diz que "a consciência se desenvolve na escala humana. Não é algo macro. E, se você vê os movimentos, o que acontece? Cada vez mais um grupo aqui, outro grupo acolá, e um movimento aqui, um movimento social acolá estão começando a desencadear a revolução".

Ao ler este trecho da entrevista, me lembrei imediatamente da Claudia Visoni e dos Hortelões Urbanos, um grupo de jardineiros "amadores" no Facebook que troca ideias e informações a respeito do cultivo de alimentos nas cidades. A Claudia é jornalista e faz parte do grupo de idealizadores da Horta das Corujas, uma horta comunitária recém implantada numa praça da Vila Madalena, bairro de São Paulo. Ela e alguns Hortelões mexeram seus pauzinhos, pás e enxadas e fizeram virar realidade uma ideia comum a todos aqueles que espremem vasos e potinhos com hortaliças nos pequenos quintais das cidades grandes.

Depois de meses de planejamento, germinação de sementes e muita mão na terra, a Horta das Corujas foi inaugurada no último sábado com show de música, lanche comunitário e a presença de mais de 100 pessoas. Para que tudo aquilo se tornasse possível, muita mobilização, bom senso e boa vontade foram necessários: entre outras ações, a Companhia de Engenharia de Tráfego da cidade doou 80 postes de 1,50 metro de altura que seriam descartados (!), os simpatizantes da horta fizeram vaquinha para a compra de tela e arame e a prefeitura doou a mão de obra para a construção da cerca.

Para a manutenção da horta, os voluntários se dividem em uma escala e cada um é responsável por regar os canteiros em um dia da semana. E como de coisa bonita todo mundo quer participar, as escolas da região já começaram a adotar espaços e planejar aulas e projetos com os pequenos, para estimular o contato das crianças com hortaliças e incluir o tema produção de alimentos nos assuntos do dia a dia.

Daqui para frente a ideia é contagiar os que visitam o local e mostrar que quem realmente quer e se mobiliza consegue realizar um projeto como esse. Para isso, a Horta das Corujas está sempre com os portões destrancados, apostando na consciência do cidadão paulistano. Em entrevista dada ao jornal O Estado de São Paulo, Claudia diz "estamos confiando na capacidade das pessoas de respeitar um projeto assim em um espaço público.

E eu morro de vontade de entrar numa máquina do tempo para, num pulinho ao ano 2042, dar uma espiada na transformação que esse projeto terá causado na cabeça dos moradores da cidade. Certamente as crianças que plantaram na Horta das Corujas serão adultos como a Claudia e os Hortelões Urbanos, e como disse Manfred Max-Neef na entrevista, grupos aqui e movimentos acolá terão causado uma revolução.

Para conhecer mais sobre o projeto e sobre cursos e oficinas que serão ministrados pelos voluntários e colaboradores, visite o site da Horta.
E não deixe de ler o Simplesmente, blog da Claudia sobre ecologia e consumo consciente.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Para você, que um dia chupou fruta no pé


CamomilaRosaeAlecrim foi a primeira a comentar o post sobre as jaboticabas e contou que lembrou da infância, quando tinha um pé desses no quintal.

Isso acontece todas as vezes que escrevo ou converso com alguém sobre frutas. 
Uvaia, pitanga, goiaba, cambuci, jaboticaba e muitas outras frutas remetem as pessoas à infância, quando subiam em árvores e comiam frutas no pé, sem lavar mesmo, que criança nem lembra disso.
E é impossível não pensar naqueles que estão crescendo sem essas experiências tão gostosas que formaram os adultos de hoje (ou, em casos ainda mais extremos, os adultos de ontem, idosos de hoje).

Por isso não posso deixar de fazer um pedido - quase um apelo - àqueles que sabem o que é subir em árvore e valorizam cada fruta que chuparam no pé do quintal: façam sua parte, assim como nossos bisavós e tetravós fizeram. Plantem frutíferas por aí e deixem de presente às próximas gerações pés de frutas que fizeram parte da história de vocês. Chega dessa moda de plantar ficus, pinheiros e eucaliptos. Encham as casas, ruas e praças de frutas e levem seus filhos e netos para conhecê-las. Comam amoras direto do pé junto com eles e dêem risada de ficar com a boca e as mãos roxas. Colham uvaias e levem para casa para fazer suco. Catem pitangas do chão e semeiem em caixas de leite longavida, para depois plantar a muda perto de casa. E se acontecer uma picada de abelha, que ela também entre para a história!

Chega de tanto passeio no shopping. Cinema é cultura, batata frita é uma delícia e videogame diverte, sim, mas esses adultos por vir só terão essas lembranças de infância?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Dias de 8 e de 80

Tem dias em que a gente acorda com o pé esquerdo e, para piorar, um doido fala grosserias no telefone, um cliente em potencial só pede o que a gente não tem e o caminhão de entrega atola no barro. Mas...


... a natureza é sempre capaz de nos recompensar com uma surpresa deliciosa, daquelas com poder de fazer tudo melhorar.
Hoje, pela primeira vez, ganhei a visita de um casal de Canário-da-terra-verdadeiros, os Sicalis flaveola. Vieram comer a quirera de milho e o mix de sementes que ponho no jardim, em frente à janela da cozinha.
Já vinha recebendo a visita de um só, sempre na hora do almoço, mas hoje deve ter rolado um convite daqueles de namorado, do tipo "vou te levar pra comer num lugar super legal", e quem ganhou o presente fui eu. Resta torcer para que gostem do cardápio, do sítio, e aproveitem a época para começar uma grande família.


PS: os antigos moradores de Holambra contam que em outros tempos via-se canários amarelos aos montes por aqui, mas a captura para criação em gaiolas e principalmente os agrotóxicos usados nas lavouras foram os grandes responsáveis por quase acabar com eles na região. É a história que sempre se repete: algumas espécies sendo prejudicadas em benefício de outras.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Paina para dar e vender

Uma encomenda de 200 quilos de sementes de paineira rosa (Chorisia speciosa) nos colocou para trabalhar a valer beneficiando frutos; há semanas não se faz outra coisa. Uma equipe de coletores percorreu cidades e estradas no entorno de Holambra e Campinas, e conforme lotava o carro de frutos vinha para cá descarregá-los. Chegamos a ter 2.000 deles de uma só vez, esparramados num terraço secando ao sol.

Das visitas que vez ou outra apareceram, ouvimos "Isso é coco? Abacate? Cacau?"
Nada disso, esse é o fruto da paineira. 
Mas é fácil entender o estranhamento, porque não é coisa comum de se ver por aí. Na vida natural, lá na árvore, os frutos nem chegam a cair inteiros porque a espécie inventou um jeito bem bonito de se propagar. Ainda penduradas lá no alto as cascas racham, os frutos se abrem e expõem a paina, um tipo de algodão bem leve que voa ao vento, cada tufinho carregando uma semente.
Mas tivemos de nos meter no meio desse ciclo, senão não existe plantio para reflorestamento, então...

Quando alguns frutos da paineira começam a se abrir naturalmente nos galhos, quer dizer que os outros já estão quase prontos, então coleta-se os ainda fechados com um gancho na ponta de uma vara. E sai de baixo que se cair na cabeça machuca. Cada um tem, em média, 300 gramas. Mais a aceleração da gravidade... 


Depois de alguns dias no sol chega a hora de pisar nos frutos, e aqueles que estão no ponto de abrir fazem um croc debaixo do pé. Cuidado nessa hora: o croc vicia e você não quer mais parar de pisar em frutos. É como estourar plástico-bolha. E não adianta querer apressar a coisa e pisar mais forte para forçar o croc; as sementes dos frutos que não amadureceram o suficiente são brancas e não germinam, enquanto que nos bem maduros elas são escuras, quase pretas.


Feito o croc, a casca se racha e o miolo está solto, com a paina ainda úmida e bem compactada. Parece um cérebro em forma de espiga de milho.


Esse é o ponto de abrir o miolo úmido e tirar as sementes...


...porque se deixar passar algumas horas a paina começa a secar, estufar e o que antes era compacto vai virando um imenso tufo que se desmancha. Quando isso acontece fica bem mais difícil tirar as sementes, que se embaraçam nas fibras brancas e leves, já querendo voar com elas.

Miolos ainda fechados, secando e estufando

A paina que sobra depois da retirada das sementes é um excelente enchimento para travesseiros, almofadas, bonecas de pano e o que mais você quiser fazer de fofo e gordinho. É a versão natural (e original) do plumante, fibra industrializada. Nos idos tempos em que as mulheres "só" cuidavam da casa, dos filhos, da comida e da costura da roupa de toda a família, eram recheados de paina os objetos fofos do lar.
Por ser nativa do Brasil, a paineira está presente na história de sítios e fazendas pelo país a fora, e além de abundante, cresce rápido e produz muitos frutos, então fornece paina para dar e vender. Pergunte para uma avó, tia ou conhecida de mais idade.

Durante a retirada das sementes fomos desmanchando os "gomos" dos frutos, que têm organização parecida com a de uma laranja: uma parte de fibra e uma divisória, uma fibra e uma divisória. Assim as divisórias já foram sendo descartadas e sobrou só a paina, limpinha, que depois de algumas horas de sol perdeu a umidade, soltou as fibras, cresceu e ficou pronta para virar recheio.

Paina limpa mas ainda úmida e compactada
Cabinhos dos frutos e películas divisórias dos "gomos"
Paina seca com as fibras soltas, bem fofas
Sementes prontas para o plantio

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Em breve, lindas cenouras tortas e coloridas!



Ganhei da Mari, irmã cozinheira, um pacotinho de sementes de cenouras coloridas que é simplesmente o máximo. A seleção de espécies se chama Kaleidoscope Mix e você pode passar vontade visitando o site da Burpee, que tem sementes de hortaliças incríveis, mas não faça pedidos pela internet porque suas sementes serão barradas na fronteira do Brasil pela inspeção sanitária. Eu já tentei. As minhas vieram escondidas numa mala de viagem, mas, por favor, não conte isso para ninguém; é um segredo de irmãs.

Esperei chegar agosto (mês adequado conforme a recomendação do verso da embalagem), preparei um canteiro especial, afofei com capricho a terra adubada e fiz a semeadura. A cartilha internacional do plantio de cenouras é clara: faça pequenas covas no canteiro (1 cm de profundidade) com espaçamento de 30 cm entre elas e coloque de 2 a 5 sementes dentro de cada uma. Mantenha a terra úmida e, depois que os brotos tiverem cerca de 5 cm de altura, faça o raleio arrancando as mudas pequenas e deixando ficar sempre a maior de cada cova.

Até a parte da semeadura tudo bem, foi fácil, mas os brotos começaram a aparecer aos montes, mostrando que praticamente todas as sementes germinaram, e quem disse que agora tenho coragem de fazer o tal do raleio? E se, na hora de escolher quais arrancar, eu estiver descartando justamente as mais lindas? E se não sobrar nenhuma roxa?


Passei dias olhando aquilo tentando tomar coragem, mas que nada. E aí decidi que só dormiria tranquila se salvasse todas, então agora o progama dos finais de tarde é... transplante! Espero o sol baixar - porque apesar de estarmos no inverno os dias têm sido quentes - rego bastante o canteiro para hidratar bem as mudas antes da "mudança" e, com um palito fino, vou soltando cada uma com cuidado, numa espécie de microcirurgia delicada. Numa nova cova bem funda faço o possível para ajeitá-las sem danos, e aí vamos ver.

Sim, eu sei, não existe transplantar cenouras, mesmo brotinhos pequenos, porque é praticamente impossível conseguir reposicionar as raízes tão organizadas e retinhas como elas nasceram no lugar original, então é enorme a chance de cenouras tortas ou mesmo dobradas, mas... e daí? Dentro de 50 dias serão duas as surpresas: a cor e o formato de cada uma. Certamente vai ser bem divertido!

domingo, 19 de agosto de 2012

Sobre enterrar sementes



Sementes são pacotinhos recheados de energia de vida e informações genéticas, e foram sendo aprimoradas ao longo de milhares de anos para perpetuar, da maneira mais eficiente possível, a espécie da qual carregam traços e características.
Quando estão livres na natureza, todo o meio ambiente se encarrega de ajudá-las a exercer sua função: ventos levam para longe as mais leves, pássaros carregam no bico e no sistema digestivo as sementes dos frutos que lhes serviram de alimento, algumas são arremessadas pelo estouro do fruto onde foram formadas, outras são transportadas pelas águas... Assim, cada uma segue seu curso natural e, em solo e condições favoráveis, dá início a uma nova vida.

Mas, e quando somos nós os responsáveis por fazê-las germinar, como lidar com cada tipo? Onde semear? Quanto enterrar?

Uma regra muito útil no preparo de sementeiras ensina que cada semente deve ser enterrada em profunidade equivalente ao seu tamanho "deitada" - ou seja, na posição em que fica naturalmente quando cai no chão. Claro que esse cálculo não é muito fácil quando se trata de sementes bem pequenas, mas no caso das grandes, veja:


A semente da Seringueira (Hevea brasiliensis), que tem 1,7 cm de espessura na sua menor dimensão, deve ser enterrada a 1,7 cm de profunidade.


A semente do Guapuruvú (Schyzolobium parahiba), também chamada de ficheira por ser bem achatadinha, deve ser enterrada sob uma camada fina de terra.


Claro que a natureza não obedece regra nenhuma e muitas sementes germinam sem nem mesmo terem sido cobertas de terra, mas essa é uma boa referência para não correr o risco de enterrar demais uma semente, sob mais peso do que ela poderia suportar na hora da germinação. Afinal, nascer não é tarefa fácil nem para os vegetais, e sempre exige algum esforço:





No caso das sementes bem pequenas, espalhá-las sobre a superfície da sementeira e peneirar uma camadinha fina de terra por cima já é mais do que o suficiente para que todas se mantenham firmes no lugar e não sejam levadas pelo vento e pela água das regas, além de permanecerem úmidas por mais tempo, já que expostas secariam muito rapidamente.

Na hora de regar, chuvinha fina feita com borrifador para as sementes pequenas, e volume um pouco maior de água, com regador ou mangueira, para as sementes maiores e mais enterradas. Diariamente.

E como já falei neste outro post  sobre sementeiras, o tempo de germinação pode variar de quatro dias a vários meses, dependendo da planta, por isso é interessante se informar a respeito do que você está semeando, para não sofrer por antecipação achando que não vai dar certo e nem desistir antes da hora.
Boa sorte!