quarta-feira, 8 de abril de 2020


Tenho uma história muito simples mas muito cheia de respeito e amor próprio pra contar.
Dia desses telefonei à moda antiga para a Isa, uma amiga querida com que tenho muito em comum. Era final de tarde e resolvi não mandar mensagem por whatsapp, perguntando se ela poderia falar, nem marcar hora para conversar quando desse. Simplesmente peguei o telefone e liguei, como a gente fazia antigamente.

Chamou, chamou, chamou e deu caixa de mensagens.
Preferi não deixar nada gravado e daí sim, mandei um whats dizendo que eu só tinha ligado pra bater papo, que estava com saudades.
Passou a noite inteira, fui dormir, e nada dela.
No dia seguinte, bem cedo, o telefone fez o barulhinho de mensagem e me trouxe a seguinte pérola:

"Oi, querida! Tudo bem? Ju, eu tava super na pegada do chocolate a hora que você me ligou, ontem, não dava pra atender. Tava naquele momento, mesmo! E depois ficou tarde pra eu te retornar. Eu posso te ligar agora?

O que dizer de alguém que não atende o telefone pra não interromper a curtição de comer um chocolate; que se deu um momento de prazer e não vai trocar isso por nada?
E sobre falar a verdade, sem achar que precisa trocá-la por algo que seria mais "importante" e que justificaria mais, como "não deu porque eu tava resolvendo um problema" ou "chegou visita bem naquela hora"?

Mais tarde, quando nos falamos, agradeci a lição que ela me deu sem perceber e contei que tenho prezado muito esse tipo de coisa: foco em momentos de prazer, comer prestando atenção no gosto, fazer uma coisa de cada vez, viver com calma sempre que for possível escolher e não ficar inventando desculpas quando a verdade é muito mais nobre! Sempre (ou quase sempre!) existe um jeito de explicar as coisas sem inventar uma mentira social totalmente desnecessária - coisa que costumamos fazer por hábito - e a sensação de ter sido sincera gera tanta leveza na gente quanto o prazer de comer um chocolate! Sem falar na admiração do outro lado, em quem nos ouve.

Isa, querida, quando eu crescer quero ser "quiném" você! :-)

sexta-feira, 3 de abril de 2020


Naquele domingo, por uma ou duas horinhas que a chuva deu uma trégua, soltei as galinhas para que passeassem um pouco pela grama do jardim, aproveitando um solzinho que passava apertado entre as nuvens. Solto sempre que posso, porque é o ponto alto do dia delas, e toda vez que abro a porta do galinheiro elas correm pra fora animadas, dando saltos, voando baixinho e cantando de felicidade.

No final daquele dia voltou a chover, eu continuei minhas coisas dentro de casa e só quando já estava na cama percebi que não tinha fechado a porta do galinheiro. Certamente as galinhas já estariam todas acomodadas dormindo - elas sabem voltar para a "cama", assim como todos nós - mas é importante fechar a porta para protegê-las de gambás e teiús, dois animais silvestres de hábitos noturnos que ainda temos na região e são loucos por ovos de qualquer tipo.

Caminhei até o galinheiro debaixo de uma chuva fina, e antes de entrar encontrei uma bolota cinza ensopada, bem escostadinho no degrau de entrada. Era Pípalo, nosso galinho tamanho P, que não conseguiu entrar e se acocorou onde pôde, meio abrigado sob a porta aberta, todo molhado e encolhidinho de frio.

Peguei-o no colo, senti seu corpinho encharcado e escolhi um lugar para acomodá-lo no poleiro, entre as galinhas de tamanho maior, para que aproveitasse o calorzinho delas. Voltei para o quarto com o coração apertado, pensando que ele já está vivendo os problemas da idade avançada e preocupada em como um galo velhinho acordaria no dia seguinte, depois de dormir algumas horas na chuva e passar o resto da noite todo molhado.

Para minha sorte, meu coração mole encontrou outro coração mole como companheiro, e depois de conversarmos sobre Pípalo passar a noite molhado concluímos que esse é o tipo de situação que gera arrependimento no dia seguinte. Se ele morresse, nós nos sentiríamos culpados.

Toca levantar, botar sapatos, ligar as lanternas e partir para o resgate de nosso galinho P, que tremia de frio mesmo amparado por penosas bem maiores que ele. E o relógio da parede marcou 11 da noite do nosso domingo "tranquilo" de quarentena quando nos sentamos no escritório para secar um galo com secador de cabelos.


Com uma manta velha no colo, Flop deu show de carinho secando Pípalo em pontos-chave, como debaixo das asas, nuca e cabeça. Conforme o topete molhado e despencado voltava a ficar arrepiado, o galinho ganhava um pouco mais de dignidade e fazia pequenos movimentos, se recompondo.

Ficamos ali uns bons trinta minutos, até termos certeza de que todas as penas estavam praticamente secas e de que ele conseguiria passar a noite com um pouco de conforto. Montamos um ninho com panos de cachorro e improvisamos um cobertor com um trapo limpinho, algo leve de que ele poderia se livrar se estranhasse muito.


Dormimos com a sensação de ter feito com capricho a nossa parte, e no dia seguinte tínhamos um galinho recomposto. Não estava 100%, era verdade, afinal, cada dia (e cada noite fria) que passa pesa um pouco mais na conta de quem já está velhinho. Mas que diferença fizeram o calor de um colo, de um secador de cabelo e de uns panos de cachorro na vida de um galo!

quinta-feira, 2 de abril de 2020


A primeira coisa em que pensei quando acordei foi que aquele seria nosso primeiro dia realmente em isolamento. Era o segundo domingo de quarentena e estava chovendo lá fora. Não daria pra trabalhar na horta, pintar as paredes da obra recém acabada, cortar a grama nem reformar os vasos da varanda, coisas que temos feito em época de isolamento social.

Só que em sítio, ao contrário do que muita gente pensa, a vida não é tão tranquila quanto parece. Principalmente quando você tem - e faz questão de manter - muitas vidas dentro dele.
Ainda não tinha terminado a manhã quando o funcionário que mora aqui conosco veio avisar que tinha um tatu nadando dentro do lago, sem conseguir sair.

Nosso lago na verdade é um tanque artificial, um reservatório de água da chuva. Um grande e fundo retângulo cavado na terra e forrado com plástico. Duas camadas de tela grossa (imagine um mosquiteiro reforçado) protegem o plástico de furos feitos pelos cachorros, que sempre entram pra nadar. E de tatus também, que eventualmente vão parar lá dentro.

Flop tem um sentimento especial por tatus. Ele diz que são bichos amistosos e ingênuos, sem maldade, e que não fazem mal a ninguém. Já aconteceu de um deles acompanhá-lo, lado a lado, numa caminhada aqui pelo sítio, em direção à matinha que protege nosso brejo. E foi por esse sentimento de amizade que, assim que soube da notícia, ele deu um pulo do sofá e foi logo vestir a sunga.

Já temos alguma prática com o protocolo: quando o nível da água está baixo e não da pra fazer o resgate pelas bordas, é preciso entrar no lago, pegar o tatu, colocá-lo numa caixa, içar a caixa pra então transportar o bicho e soltá-lo num lugar melhor. Desta vez ainda houve um detalhe a mais: o tatu, com suas super unhas de cavar, furou a primeira tela e entrou por baixo dela, ficando ainda mais preso. Mas com calma e experiência nosso Tarzan particular deu conta do resgate (com o apoio de sua Jane, que trabalhou na retaguarda!), e em poucos minutos o tatu descansava aliviado, todo molhado, dentro de um engradado. Um pouco mais tarde foi solto na matinha do brejo, nossa área isolada e protegida, que recebe os animais silvestres que aparecem aqui em volta de casa.

Ótimo. Tudo tranquilo e calmo, todos vivos e salvos, e então pudemos voltar ao nosso domingo de quarentena.
Só que, sempre que levanto essa "lebre" do sossego, a vida me responde levantando de volta uma plaquinha que diz "Tsic, tsic, tsic. Tem mais. Você está sendo requisitada para..." E então no fim do dia, bem na hora de dormir, já na cama, me lembrei que não havia fechado a porta do galinheiro, para a segurança das galinhas durante a noite.

Toca levantar, ligar a lanterna, sair de pijama mesmo e caminhar sob as estrelas com as três cadelas acompanhando, pra encontrar, bem na entrada do galinheiro...
Amanhã eu conto! :)




sábado, 28 de março de 2020


Com quase toda certeza sairei bem dessa fase de quarentena. Tenho mantido a rotina de exercícios físicos, trabalho na horta, cuidados com a casa, com a alimentação etc. Isso tudo, aliás, é basicamente o que já faço há anos e também o que tem sido recomendado para manter a sanidade no isolamento, de onde se conclui que eu já tinha uma rotina saudável.

Infelizmente não posso dizer o mesmo do meu telefone celular. Ele, que tinha uma rotina razoavelmente tranquila e regrada, tem sido bombardeado por porcaria de todos os tipos. Passa o dia inteirinho carregando videos e fotos, que vão de recomendações de cuidados anti-contaminação a sugestões do que fazer durante a quarentena, passando por besteiras das piores até ideias criativas das mais inteligentes e divertidas.
A bateria já não dura o dia inteiro, como era de costume, e ele reluta por um segundo ou dois a passar de uma coisa pra outra, o que fazia com agilidade até duas semanas atrás.

Temo pelo futuro, porque não sei se minha condição financeira por vir me permitirá trocá-lo por um novo, e nem mesmo sei se minha fabricante preferida de aparelhos celulares sobreviverá.
Diante do cenário incerto e pra tentar estender a vida do meu brinquedinho, agora incluí na minha rotina (e na dele) algumas horas diárias apagando arquivos inúteis, coisa que devia ter como hábito já há muito tempo.

A depender da minha disciplina, pode ser que nós dois saiamos melhores de tudo isso. Eu terei aprendido a descartar no ato do recebimento o lixo virtual, e ele voltará à vida normal mais leve, depois de muitas e muitas sessões de desintoxicação.

E antes que alguém me sugira configurar o aparelho para não baixar arquivos automaticamente, explico que isso já está feito, mas como saber se algo presta ou não presta antes de baixá-lo? Meu contatos estão em casa, entediados, e seus bons sensos andam meio assim, assim, duvidosos. Às vezes acertam na mosca, outras dão tiros n'água. Cabe a mim fazer a curadoria do que vale ou não a pena assistir!

sexta-feira, 27 de março de 2020


Dia desses saí para andar de bicicleta e passei por uma experiência inusitada.
Já vinha voltando pra casa quando encontrei uma senhora holandesa numa bicicleta daquelas de passeio, com a bolsa de compras na garupa, vestida com roupa do dia a dia, calça escura e blusa amarela floridinha.
Eu estava toda paramentada, de luva, capacete, bermuda e camiseta de ciclista, músicas animadas tocando no fone de ouvido, pedalando uma bicicleta moderna...
Nos encontramos numa rotatória perto do centro da cidade, eu vindo de uma direção e ela de outra. Dei um sorriso, acenei com a cabeça e fiz um bom dia silencioso com os lábios. Ela entendeu, sorriu e me cumprimentou de volta. Não sei bem quem era ela, mas nossos olhares se cruzaram então fomos educadas e registramos delicadamente nosso encontro.

Segui meu caminho e pedalei por quase dois quilômetros, fazendo força. Passava das onze da manhã, o sol estava forte e o calor do asfalto subia por todo o meu corpo, dificultando ainda mais a volta pra casa. Nessas horas, as músicas animadas da minha playlist ajudam muito, porque dão uma adrenalina bem boa e eu pedalo como dançava aos vinte e poucos anos, nas noites de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Pois de repente vejo de canto de olho uma bicicleta me ultrapassando. Uma dessas de passeio, com uma senhora de calça escura e blusa amarela floridi... EPA! Era ela, a senhora da rotatória!
Lembro de ter dado um sorrisinho meio mais ou menos, bem sem graça, totalmente surpreendida pela velocidade em que ela vinha e pela feição plácida, como se estivesse descendo uma ladeira no frescor da manhã. Fiquei olhando ela passar por mim e murchava um pouco mais a cada volta dos pedais, fazendo muito mais força pra seguir na minha velocidade do que ela pra me ultrapassar. Que ridículo. Até então eu me achava em boa forma, aos quarenta e poucos, toda atleta, saindo pra pedalar três vezes por semana pra manter as pernas fortes.

Tudo o que consegui fazer depois de alguns segundos, quase um minuto, foi sacar o telefone sem parar de pedalar, pra registrar a ultrapassagem histórica. Fiz uma foto dela, bem lá na frente, e é essa imagem que você vê aí em cima.

Cheguei em casa sentindo um misto de vergonha e frustração e resolvi contar para o marido, que deixava escapar um mini sorriso debochado enquanto eu desabafava, meio constrangida. Pelos detalhes que descrevi ele sabe exatamente de quem se trata, e me falou mais ou menos a idade dela.

Isso aconteceu já faz uns dias, e nesse tempo me recuperei da humilhação e estou aqui contando a coisa em público: tomei um baile de uma senhora na casa dos setenta. Ela tem pelo menos uns vinte e cinco anos a mais que eu e não adianta esconder, ainda falta muito arroz com feijão pra eu conseguir acompanhá-la num passeio de bicicleta pela cidade.

Olhando por outro ângulo, ainda restam esperanças. Se desde os trinta eu pedalo por aí, alguma chance tenho de chegar ativa aos setenta, pedalando por quase dez quilômetros pra fazer compras na cidade como ela, minha diva, musa inspiradora! :)

quinta-feira, 26 de março de 2020


Em 2009 comecei um blog porque sentia vontade e certa urgência de conversar sobre inquietações ecológicas, sugerir ideias e mostrar mudanças de hábitos que vinha experimentando em minha própria vida diária.

Em 2019, quem diria, inaugurei a Escola Orgânica Holambra, uma escola de educação ambiental, porque com o passar de 10 anos mudando hábitos e pesquisando uma vida mais consciente, me pareceu urgente ensinar as lindezas que descubro todos os dias, mostrar que o contato com ambientes naturais só traz coisas boas (mesmo quando elas são difíceis) e que, apesar de já falarmos em consciência ecológica há pelo menos 20 anos, ainda temos muito a aprender e a ensinar; e escola é isso, uma via de mão dupla.

Estamos em março de 2020. Mal inauguramos a escola e já tivemos que entrar em recesso. Estamos todos em compasso de espera e proteção, tentando nos isolar de um vírus.
E para onde voltou a minha vida? Outra vez para a horta, para a pesquisa de novos hábitos, para o escrever, para o fotografar... E para o De Verde Casa.

Voltei ao blog, meu registro de descobertas, para agradecer tudo o que veio através dele.
Era um caderno com fotos e acesso livre pra quem quisesse ler. Eu escrevia e recebia visitas.
Pois veio muito mais do que eu jamais imaginei.
Ganhei amigos e uma nova família - hoje peças fundamentais na minha vida -, novos trabalhos, uma nova cidade para viver, novos interesses, novos projetos...quanta coisa! Mudou tudo, tudo, tudo.

A gente às vezes se envolve em pequenas coisas e não pode imaginar que elas talvez sejam o buraquinho da fechadura do portal para um mundo novo. Que se insistirmos em enfiar a chave ali, se dermos as voltas completas pra destravá-la e depois tivermos a coragem de pressionar a maçaneta e abrirmos uma frestinha... Uau!

Que nesse momento de isolamento em casa você possa se dedicar a algo que te chama e a que você tem respondido "agora não da, agora não da". Você diz que é por falta de tempo, mas no fundo sabe que falta mesmo é coragem. Talvez eu esteja escrevendo isso para mim mesma, me desculpe se te uso como pretexto, mas quem sabe não aproveita a oportunidade, pega na minha mão e vamos juntos?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Carnaval no jardim

Flores, Arthur (que nem veio pra almoçar mas não resistiu, Marcos e Neide)

No domingo, repetindo pela terceira vez o que eu já chamo de tradição desde a segunda, nos encontramos Neide, Marcos, Flores e eu para ao menos um dia juntos durante o carnaval. Nos anos anteriores fomos ao sítio deles carregados de plantas para enriquecer a diversidade por lá - plantas são o nosso assunto. Desta vez eles vieram a Holambra, no nosso sítio, carregados de comidinhas, folhas e flores secas para chá, frutinhas para sobremesa, maracujá para semear… comidas são o assunto deles.

Não houve muito planejamento, mas eu e Neide trocamos por celular algumas mensagens sobre fazer macarrão caseiro colorido. Minha irmã Mari, a Mariana Valentini da Brodo Rosticceria, fez lindas gravatinhas coloridas para o carnaval que eu só vi pelo Instagram mas que me inspiraram bastante. Comer é uma delícia, e comer comida bonita é melhor ainda. Em boa companhia então…

Pois ficou combinado que almoçaríamos massa. A Neide, sempre muito prática e animada, ofereceu de trazer a máquina e flores azuis de Clitoria ternatea para testarmos a cor na comida. Eu botei na roda a primeira moranga colhida este ano no jardim e beterrabas, assim teríamos três cores no prato.


Só que das caixas vindas da cozinha do blog Come-se saíram muito mais do que ingredientes para chás e macarronada. Veio uma tigelona de coxas de frango para os que comem carne, uma boa fatia de melancia, um punhado de siriguelas, maracujás de duas espécies para sucos e mudas, uma metade de limão siciliano que só hoje encontrei esquecida na geladeira… É interessante como para quem trabalha com comida é tudo muito simples. Rapidinho junta-se uma coisa com outra com outra e com outra e vai a assadeira cheia para o forno. O processador de alimentos (que também veio na mala) em um instante transforma tomate fresco com melancia e temperos em um delicioso gazpacho pra comer como entrada. E enquanto eu fico pensando se é melhor juntar dois disso com três daquilo ou ao contrário, a Neide já bateu a massa de abóbora e eu nem vi como ela fez.

O gazpacho ficou delicioso. Acho que
quero ter um processador de alimentos...

Uns minutos depois já estavam prontas três bolas de massa: a azul clarinha, colorida com flores de Clitoria ternatea; a amarela, feita com abóbora moranga e uma roxinha linda, de beterraba. O próximo passo era instalar a máquina numa superfície grande pra trabalhar, e a despeito das moscas e dos cachorros de plantão, Neide escolheu montar a traquitana toda lá fora, na grama, sob a sombra da Teca.

No melhor estilo gambiarra, com cadeiras viradas sobre a mesa e um pedaço grande de cano de pvc, foi montado um varal para secar os fettuccines, e num minuto em que deixei a cozinha para ir ao banheiro ouvi risadas e fui chamada às pressas. Corre, vem fotografar! Não sei muito bem como aconteceu, mas em questão de segundos a primeira leva de massa de abóbora escorregou do varal de cano e foi parar na grama, e em mais um piscar de olhos os três cachorros devoraram aquilo tudo.


Depois das melhorias no varal para evitar futuras perdas vieram lindos fettuccines azuis e roxos combinando com a camiseta da cozinheira, e comemos nossa macarronada com molhinhos de manteiga e sálvia e de tomate, junto com as coxas de frango e fatias de abóbora assadas com temperinhos da horta. Isso é que é almoço de domingo!



Marcos, o companheiro que acompanha,
espantava moscas e ajudava na produção da massa





Hoje acordei pensando em contrastes.
A massa foi a Neide que fez e o molho fui eu, com tomates pelados de lata mas quase sem processamento industrial. A manteiga era de pacote mas a sálvia é produção da casa. Os corantes da comida eram totalmente naturais: beterraba, abóbora do quintal e flores da horta da Neide. Comemos na mesa sobre a grama, debaixo de uma árvore bonita, com moscas e cachorros por perto, sem muitos problemas.

Agora pense em alguém que more num apartamento. Pode ser você, pode ser eu, que já fui muito urbana. Essa pessoa acorda lá no alto, décimo segundo, vigésimo quinto andar. Olha pela janela só pra saber se faz sol ou se chove e se enfia rápido numa roupa, café solúvel numa mão, bolacha de pacote na outra. Pega o elevador com o vizinho que nem responde o bom dia e aperta o G3, a garagem mais do alto. Entra no carro, afivela o cinto e logo se entala no trânsito; cinquenta minutos pra chegar ao trabalho. O prédio de escritórios fico no topo de um shopping, daqueles com muitos níveis de garagem. De novo o G3. Estacionamento cheio, vaga apertada, elevador lotado, a mesa tomada de pilhas de papel e um monte de e-mails para responder. Na hora do almoço a praça de alimentação salva: um salgado frito com refrigerante diet, porque não vai dar tempo de almoçar direito. De tarde telefone, computador, reunião no ar condicionado, cafezinho da máquina no copinho plástico, mais computador, mais telefone… Acaba o expediente e o dia termina como começou, só que ao contrário: mesa ainda tomada de papéis e os e-mails a responder, elevador lotado, vaga do carro apertada, fila pra passar pela cancela do estacionamento, uma hora e vinte no trânsito até chegar em casa, G3, elevador com os vizinhos… e chega o momento relax: um banho quente (mas rápido por causa do rodízio de água), pijaminha de malha feito de fio de garrafa PET (sustentável) e um jantarzinho leve (salada hidropônica com nuggets de vegetais e um chá gelado, daqueles de misturar o pozinho na água. Sabor pêssego).

Essa pessoa (eu, você, alguém da sua família) não colocou o pé na Terra! Não digo descalço, na terra terra, aquela que tem minhocas, falo do planeta Terra! O dia inteiro se passou no alto, em andares de cimento. Os deslocamentos foram dentro do carro, as garagens eram elevadas, o almoço foi na praça de alimentação do shopping... Essa criatura não pisou numa calçada que seja, muito menos em um só metro quadrado de grama. Capaz que não tenha reparado no céu, não escutou um pio de pomba e nem comida de verdade comeu. Nem bebida de verdade bebeu! E pelo que me consta não inventei nenhum absurdo, nada que eu, você e seus conhecidos não tenhamos feito muitas e muitas vezes em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte…

Antes que você me chame de Pollyanna, deixe-me dizer que não acho que tenhamos todos que nos mudar para ecovilas, plantar nossa própria comida, costurar nossas próprias roupas, vender nossos carros… Adoro dirigir, uso computador todos os dias, tenho pilhas e pilhas de papel sobre a mesa e dezenas de e-mails a responder, mas tenho tentado andar pelo caminho do meio. Planto horta (quando morava em São Paulo plantava em vasos), sento na grama com os cachorros no colo, como comida de verdade feita por mim em oitenta por cento das refeições, boto um tênis e vou correr na rua e tento, diariamente, melhorar minhas escolhas. Já morei em diversos lugares diferentes, já trabalhei com coisas saudáveis e com insalubres também, e a cada dia que passa acho mais importante e prazeroso o contato diário com a Terra. E mais: não conheço ninguém que tenha feito o caminho contrário sem ao menos cultivar um plano de, no futuro, voltar às raízes.

É um caminho sem volta. Quanto mais a gente planta, mais quer plantar. Quanto mais pensa na comida, mais se dedica a fazê-la saudável. Quanto mais põe a mão na terra, senta na grama e corre na rua, mais sente falta disso tudo quando por algum motivo não pode fazer. E tem mais uma coisa bem interessante: a gente começa a se relacionar com pessoas que fazem o mesmo, que pensam igual, que andam pela mesma trilha sem querer voltar pra trás. É o caso da minha amizade com a Neide. Quando eu morava em São Paulo, trabalhava muito perto da casa dela e era um pouco aquela pessoa que não tinha tanto contato com a Terra, a gente não se conhecia. Agora que ficamos amigas, pergunta se eu quero passar um Carnaval sem ela???

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Generosidade


O mundo para quando ele vem aqui, e eu largo tudo o que estiver fazendo só pra ouvi-lo falar. Ele sabe tudo de plantas e tem no viveiro nada mais nada menos do que 1.200 espécies delas (aposto que tem mais; sempre tem umas que ficam esquecidas na hora do levantamento). O que não tem no sítio no momento ele diz quando vai ter ou conhece quem tem. Ou melhor ainda: diz que no trevo da cidade tal, do lado esquerdo de que vem de X e vai para Y tem um pé daquilo, que no ano passado não deu flor mais que nesse já está dando, e daqui a tanto tempo vai ter semente, e que o momento certo de colher é...

Já viajou o país inteiro diversas vezes garimpando espécies e cita montes de lugares interessantes que abrigam o que há de mais bonito e curioso no reino vegetal. Diz que hoje não tem mais aquele pique de antigamente, quando percorria mais de mil quilômetros num único dia visitando produtores e propriedades, então agora só encara 4 ou 5 horas no volante de cada vez. Só que falta tempo. Precisaria ter alguém para deixar no viveiro no lugar dele enquanto ganha mais mundo. Para isso tem ensinado Gustavo, o filho, que é daqueles casos que dispensam exame de DNA. Olhando um ao lado do outro você entende o real significado do termo herança genética.

O nome dele? Edilson Giacon, do viveiro Ciprest.

Não bastasse tudo o que essa criatura conhece, digo com toda segurança que é uma das pessoas mais simpáticas e generosas que conheço. Pra começar ele fala sorrindo, o que faz qualquer conversa ficar mais especial. E sorrindo ele vai contando casos, falando nomes, descrevendo formatos de folhas, flores, frutos e ensinando coisas que eu não sei. Como o que mais tem é coisas que eu não sei, ele passa horas respondendo (numa boa!) as minhas perguntas. Com a maior generosidade me ajuda a identificar o que estamos cultivando sem saber o que é, sugere alterações, melhorias e ainda pede preços e reserva lotes. 

Estamos muito próximos um do outro - coisa de meia hora de estrada - e ele às vezes compra plantas aqui, o que me deixa muito lisonjeada. Nada mal poder fornecer algo para quem é referência nacional por ter de tudo. Mas ele está sempre atrás de mais: invariavelmente chega com novidades de uma planta nova que conseguiu que alguém mandasse de outro continente e que já está multiplicada, enraizada e crescendo no viveiro. Assim, garimpando sem fronteiras, ele hoje tem variedades especiais como a orquídea que produz a verdadeira baunilha em fava, a Amapá - árvore que dá leite tão nutritivo quanto o leite materno, as diferentes espatódias branca e amarela, o cipó-alho, diversas frutíferas que você e eu nunca ouvimos falar, muitas variedades de manga e laranja, sem falar dos perfumadíssimos limões yuzu, cafir e agora também um  novo que me trouxe de presente: o limão-caviar, ou "caviar vegetal".

Folhagem fininha do limão caviar

A folhagem é uma graça, e mais bonito ainda parece que é o interior do fruto, que ao invés dos gominhos em formato de gota, como todos os cítricos, tem o sumo embalado em bolinhas verdes, amarelas ou alaranjadas, dependendo da planta.

Fico sempre tentando retribuir tudo o que ele me ensina e me dá de presente, por isso, na visita da semana passada convidei-o a passear pelo jardim para ver como estão seus filhos - muito do que tenho de bonito veio da casa dele. O Combretum amarelo floresceu esse ano pela primeira vez e encheu nossa antena de ferro de delicadas escovas de cerdas macias. O eucalipto arco-íris ainda não coloriu mas cresce bonito, já está mais alto do que eu. A Hamelia patens dá flores e frutos o ano inteiro, e por causa dela sempre assistimos briga de beija-flores, que disputam a planta a bicadas. A paineira branca também floresceu pela primeira vez recentemente e foi o ponto alto do jardim por mais de um mês, com suas grandes flores de miolo cor de vinho. A fruta do milagre produziu bastante no primeiro semestre e agora com a chegada da primavera se animou a crescer ainda mais, já preparando botões para uma nova florada.

Combretum fruticosum florido no início do inverno

Flores da Hamelia patens,
super disputadas por beija-flores

Frutos da Hamelia patens,
super disputados por passarinhos vários

Flor da paineira branca
Ceiba glaziovii

Depois de três horas aprendendo, aprendendo e aprendendo ainda ganhei de presente uma poda no arbusto Alegria-dos-pássaros (Elaegnus umbellata), que também veio do Ciprest mas nunca fez a alegria dos voadores daqui. Já são dois anos tentando de tudo para que ele floresça e frutifique mas ainda nada. Acho que dei azar, porque quem tem a planta diz que ela produz fácil e realmente é um sucesso com a bicharada do jardim. Edilson conta que quando conheceu a espécie, anos atrás, teve a impressão de que macacos pulavam entre os galhos, de tanto que o arbusto chacoalhava. Chegando mais perto percebeu que eram pássaros, mais de uma centena deles num mesmo pé. Fez estacas, passou a produzir a espécie e batizou-a com esse nome mais adequado e sugestivo, para substituir Acerola-japonesa, que era como a chamavam. Parece que pegou, porque é assim que atualmente ele é conhecida, inclusive nos livros.


Quando Edilson foi embora fui curtir os presentes, repassar as anotações e, como sempre, fiquei me sentindo eternamente em débito pelo pacotão de coisas interessantes que sempre fica aqui comigo depois que ele sai pelo portão.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

As vacas e as banheiras


Aqui bem perto do sítio tem um lugar por onde passo quando vou buscar retalhos de ferro de construção na d. Neila. É uma estradinha de terra que sai da estrada de asfalto do sítio onde moro e não é usada como passagem para lugar nenhum, apenas acesso aos sítios vizinhos. É uma área ainda mais rural do que a minha, porque além da terra na estrada tem vacas, e nada mais rural do que vacas, você há de concordar comigo.

Já passei por aí diversas vezes, estou cansada de conhecer a paisagem, mas acho que em nenhuma das passagens deixei de parar o carro pra dar uma olhada com calma, uma curtida. Aquele ar bucólico, as vacas, as banheiras... Sim, banheiras!



O sitio é de uma família holandesa de produtores de leite, e é óbvio que as vacas são holandesas. Até aí, interessante, bonito de ver, mas sem novidades. O legal mesmo são as banheiras. Dezenas e dezenas de banheiras antigas enfileiradas, uma ao ladinho da outra, servindo de coxo às vacas. Dependendo do horário em que passo as vacas estão comendo ou os coxos estão vazios e as vacas preguiçando no sol ou na sombra - sempre todas juntas. E é nesse momento que a cena fica inusitada. Uma fila de banheiras vazias ao sol, sobre a terra, e um monte de vacas deitadas ao lado.


Eu SEMPRE paro o carro. As vacas me olham, eu olho as vacas… elas devem pensar qual é o problema? Essa moça nunca viu vacas ou nunca viu banheiras?
Depois de alguns minutos eu sigo. Sorrindo. Adoro essas cenas! 

Mais pra frente é menos inusitado mas também é bonito. Até outro dia tinha plantação de sorgo, que agora já está colhido 


e tem um campo permanente de roseiras, já de redinhas nos botões pra que as flores cheguem bonitas na floricultura.


E ontem passei por algo diferente: uma capivara seca e achatada. Não sei como isso foi acontecer, só sei que ela estava lá, no meio da estrada, plana como uma folha de papel.


Depois disso está o terreno da d. Neila. Logo conto sobre ela e seu trabalho árduo com entulho e lixo reciclável. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Cegonha


Ninguém sabe a hora exata, mas no último domingo, 21 de setembro - o dia da árvore! - chegaram no bico da cegonha os bebês sabiá que a gente tanto esperava. Mudamos os hábitos de entrada e saída aqui de casa por causa deles; uma porta foi interditada, uma cortina foi improvisada e até silêncio a gente faz pra não assustar essa familiazinha.

As cascas dos ovos sumiram (mamãe gosta da casa limpinha) e no lugar deles agora crescem essas duas criaturinhas magrelas e ossudas, de penacho nas costas e grandes olhos pretos saltados e ainda fechados.

Ontem eu e D. Sabioca fizemos um trato: todos os dias às 8:30 da manhã ela dá uma saidinha pra esticar as asas e eu rapidinho faço fotos pra registrar o desenvolvimento das crianças. Aí em cima vai a imagem das primeiras 24 horas vencidas, e quando tiver um álbum bem recheado volto para mostrar e deixo todo mundo folhear.

Veja aqui o começo dessa história.