sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Um poço caipira, o Sebastião Salgado e a Martha Medeiros


Demorou um pouco mais do que em outros lugares do interior de São Paulo, mas a água aqui no sítio também já começou a rarear. Toda a nossa água vem de um poço caipira de 6 metros de profundidade que nos abastece regiamente durante todo o ano. É água límpida, gostosa, que sempre dá e sobra. Mas agora falta.

Nesta segunda-feira, pela primeira vez neste inverno, o nível da água desceu mais de um metro, e conforme nosso consumo aumenta (nos dias de irrigar as mudas do viveiro de árvores, por exemplo) ele desce ainda mais um pouco, chegando quase à pontinha do cano da bomba. Se a gente bobear, ela puxa ar.

A solução foi colocar uma boia que liga a bomba quando os lençóis freáticos abastecem o poço e desliga a sucção de água quando o poço esvazia. Isso quer dizer que às vezes nossa caixa d'água enche, outras não. Isso quer dizer que às vezes tem água pra tomar banho, às vezes não. E o mesmo pra regar as plantas, lavar a louça, a roupa, escovar os dentes…

No início da semana terminei de ler Da minha terra à Terra, livro em que o famoso fotógrafo Sebastião Salgado conta sua história de vida e sua experiência trabalhando ao redor de todo o mundo, de áreas de grandes mazelas sociais, como muitos países da África, a lugares de paisagem inesquecível, paraísos na Terra. Todo o texto é muito bonito e cheio de reflexões sobre o mundo e a raça humana, mas o que mais me tocou foi a reflexão ao final, na conclusão, onde ele diz algumas coisas importantes:

- … o homem das origens é muito forte e muito rico em algo que fomos perdendo com o tempo, tornando-nos urbanos: nosso instinto.
- Vi o que éramos antes de nos lançarmos à violência das cidades, onde nosso direito ao espaço, ao ar, ao céu e à natureza se perdeu entre quatro paredes. Erguemos barreiras entre a natureza e nós. Com isso, nos tornamos incapazes de ver, de sentir…
- Se em meu livro Trabalhadores fiquei orgulhoso por poder mostrar que somos um animal incrivelmente engenhoso na capacidade de produção, também vi que, em nossa maneira de viver, fizemos de tudo para destruir aquilo que garante a sobrevivência de nossa espécie.

Depois de terminar esse livro andei folheando A graça da coisa, da Martha Medeiros, espetacular coleção de crônicas guardada na minha estante entre outros livros dela, lidos sempre com muito prazer. Na página 40 está Alguém quem?, texto publicado num jornal do Rio de Janeiro ou de Porto Alegre em 20 de novembro de 2011.

Filosofando sobre aquele tão familiar pensamento do "alguém tem que fazer alguma coisa" ela fala de mim e de você que, por arrogância ou egoísmo, nos anunciamos muito capazes, mas quando a teoria necessita ser posta em prática, somos os primeiros a transferir responsabilidades.

Nessa parte do texto, lendo deitada, fechei o livro sobre o peito e fiquei lembrando da imagem da pouca água lá no fundinho do poço. Somos cinco adultos morando no sítio e ainda temos direito ao espaço, ao ar, ao céu e à natureza que, segundo Sebastião Salgado, a maioria das pessoas já perdeu. Além disso (e por causa disso), ainda preservamos um pouco do nosso instinto e interagimos com a natureza tentando nos integrar sempre mais e entendê-la.

Talvez muitos dos moradores das cidades já tenha se dado conta de sua responsabilidade no uso correto da água que chega às torneiras, mas certamente muitos ainda transferem responsabilidades dizendo que alguém tem que fazer alguma coisa. Quando se mora numa comunidade enorme, onde é impossível acompanhar tudo o que acontece na cidade - e eu passei a maior parta da vida em lugares assim - acho que a gente tem a sensação de que existe ali uma infra-estrutura pronta para nos servir seja lá qual for a nossa demanda. É muito comum ouvir gente dizendo "eu pago, eu tenho direito". Isso, aliás, acontece muito em relação a lixo: "eu pago os impostos que pagam os salários dos varredores de rua, então quando jogo lixo no chão eu estou dando emprego a eles". Eu já ouvi isso, juro.

Basta a gente se mudar para um mini lugar, onde está nas nossas mãos o controle de tudo o que entra ou sai, funciona ou quebra, tem ou falta, que a gente percebe a responsabilidade de cada um no funcionamento do todo. Somos cinco aqui pra dividir aquela aguinha no fundo do poço. Se usarmos com inteligência e educação, vai dar pra hoje e pra amanhã. Se bater um egoísmo, acaba hoje mesmo para as pessoas, os animais e as plantas, que são o comércio que nos sustenta. E aí toda a engrenagem emperra.

O raciocínio e o funcionamento são os mesmo numa pequena, numa média ou numa grande comunidade, e certamente todo mundo já sabe disso. O que falta é se perceber responsável, ao invés de esperar que alguém faça alguma coisa, e usar com muito respeito aquilo que garante a sobrevivência da nossa espécie.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O trigo do vizinho já não está mais verde...

Trigo - 02 de julho de 2014

No ano passado me escreveu a Suelen, leitora romântica do De Verde Casa que iria se casar e procurava uma plantação de trigo para fazer fotos com o noivo. Respondi com a má notícia de que se o casamento seria em maio ela não conseguiria um campo de trigo daqueles de cinema, bem douradinho, porque o trigo é uma cultura de inverno. Isso quer dizer que em maio os produtores ainda estão pensando em plantar o trigo, e só lá pra julho ele vai estar como a Suelen queria.

Tá certo que estamos num tempo em que tem morango em janeiro e manga em agosto - o ser humano tem tentado enganar a natureza forçando produções fora de hora com estufas e recursos tecnológicos - mas nas grandes culturas quem manda ainda é o clima. Safrona de milho, daquelas boas mesmo, é em janeiro e fevereiro. Milho gosta de calor e chuva. Já o trigo é do contra: gosta de frio e seco.

Num país enorme desses, onde na metade de cima faz calor de fritar os miolos e na de baixo às vezes até neva, é possível produzir quase de tudo. O segredo está em saber escolher a cultura certa para o local certo. Quando a gente é muito urbana, só pensa no clima na hora de escolher a roupa pra sair. Já o pessoal da roça tá sempre de chapelão e manga comprida, faça frio ou faça sol, mas dorme e acorda de olho no clima pra saber o que tá na hora de plantar e de colher. E se essa moçada dorme no ponto, a lá da cidade não tem mais o que comer!

Aproveitando o ensejo do trigo, deixo duas fotos da plantação de um vizinho. Lá no alto o trigo ainda verde, pra quem (como eu, um dia!), nunca tinha parado para pensar que ele não nasce seco, douradinho como nos desenhos das embalagens de pão e biscoito. Abaixo vai o mesmo campo vinte dias depois, sequinho, pronto para colher.

Trigo - 22 de julho de 2014

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Duas amigas queridas, a sálvia e seus usos


A primeira lembrança que tenho de ter comido sálvia (Salvia officinalis) foi num frango com requeijão que a Helô fez no forno. Éramos amigas começando um apartamentinho charmoso, e esse foi um dos pratos que estreou nosso fogão novo. Eu não cozinhava quase nada e ela sabia muito mais coisas do que eu, tanto na cozinha quanto sobre ervas. Nosso jardinzinho interno, debaixo da janela da sala, começou com sálvia, arruda e uma avenca que os gatos insistiam em comer, pra depois vomitar em cima do sofá.

Muito tempo passou e muitas sálvias eu tive, mas apenas pelo prazer de cultivá-las - praticamente nunca mais a usei, nem em preparos culinários, muito menos medicinais. Há anos não como carne (como se a sálvia combinasse só com frango, imagine!) e descobri que já sofri muito daquela síndrome burra que nos faz desprezar as soluções tradicionais caseiras porque o moderno/comprado/industrializado é mais fácil, portanto parece melhor. A gente compra bolo pronto empacotado, pó colorido pra fazer suco e sopa, arroz ensacado em porções pra cozinhar com plástico e tudo… Ah, os tempos modernos...

Pois ontem a Carol, outra querida com quem também já tive o prazer de dividir a casa, falou no programa da rádio que sálvia é tiro e queda pra resfriados, tosse, asma, bronquite e outros "ites". E eu, resfriada há duas semanas como ela e meio estado de São Paulo, chupando pastilha de farmácia com gosto de tinta enquanto vejo crescerem intactas as sálvias do jardim.

Também me senti burra por ter em casa uma estante cheinha de livros sobre ervas e nunca ter pesquisado sobre essa espécie, considerada erva sagrada desde que o mundo é mundo. Sim, a sálvia tem mil propriedades curativas além de dar mais sabor à comida. No nome científico, o Salvia vem do latim salvere, que significa salvo, são, sadio, e o officinalis indica que a planta é reconhecida por suas propriedades medicinais. Olha só:

      Uso interno:
  • Para indigestão (dispepsia) e formação de gases: uma xícara de chá após as refeições
  • Para cólicas menstruais e seios doloridos durante a TPM: uma xícara de chá a cada três horas
  • Para sudorese e salivação excessivas: uma xícara de chá pela manhã e outra à noite
  • Para diminuir a produção de leite materno no processo de desmame de bebês: uma xícara de chá duas ou três vezes ao dia

     Uso externo:
  • Para garganta inflamada: gargarejos com chá de sálvia morno. Para aumentar ainda mais a ação, acrescente uma colher de chá de vinagre por xícara. Tenho feito e estou gostando do resultado.
  • Para gengivite, afta e mau hálito de origem bucal: bochecos com chá de sálvia, que tem excelente ação antiséptica
  • Para limpar os dentes numa versão natureba da escova de dentes (só vale quando não há outra opção!): esfregue folhas de sálvia em todos os dentes, caprichando nas junções com as gengivas. A textura das folhas se encarrega da limpeza, e a ação antiséptica ajuda na eliminação das bactérias
  • Para aliviar a coceira nas picadas de insetos e a dor de feridas na pele: compressas com pano umedecido em chá de sálvia sobre o local atingido
  • Para escurecer os cabelos castanhos: enxague com chá de sálvia após a lavagem com xampu

IMPORTANTE: Apesar de tantas propriedades de cura, o uso da sálvia é contraindicado em gestantes, lactantes (se não há a intenção de diminuir a produção de leite) e epiléticos. Também pode haver efeito tóxico em uso prolongado, afinal, qualquer coisa em excesso pode fazer mal, por isso faça intervalos de algumas semanas a cada mês de uso da sálvia.

Os chás devem ser preparados sempre por infusão: aqueça uma xícara de água até a formação de bolhinhas no recipiente. Apague o fogo e acrescente uma colher de sopa de sálvia desidratada ou duas da erva fresca. Tampe para abafar e espere 10 minutos antes do uso interno ou externo.

Cultivar a sálvia não é nenhum mistério, basta oferecer a ela as condições de vida da costa do mar Mediterrâneo, sua terra natal. Algumas horas de sol pleno e terra levemente arenosa fazem a sálvia feliz. Pode até ser em vasos pequenos, de 20 cm de altura. Assim como o alecrim e o tomilho, nativos da mesma região, sálvias não gostam de sombra nem de encharcamento do solo, por isso são bastante indicadas para jardins ao ar livre com manutenção pouco frequente, como praças e outros espaços públicos, ou para a casa de quem não tem muito tempo para mimá-las.

Nos mercados e lojas de jardinagem é possível encontrar lindas variedades dessa erva, além da básica e verdinha Salvia officinalis, a sálvia comum. Algumas tem caule arroxeado, como a Salvia officinalis "Purpurascens" das fotos, outras têm as folhas manchadas de amarelo, como a Sálvia dourada (Salvia officinalis "Icterina"). Tem ainda a variedade Tricolor, que junta numa planta só as colorações das duas anteriores. Essa é linda!

Sem mistérios: é planta fácil de cuidar, útil e super decorativa. Uma ótima opção pra ir além da salsa, da cebolinha e do manjericão de sempre.


Para ouvir a Carol na Band News FM, clique aqui ou vá até o portal Minhas Plantas e procure pelo podcast na sessão Rádio.


sexta-feira, 14 de março de 2014

A filha da mãe


Em noventa por cento do tempo que passo aqui mostrando meus deveres de casa falo de coisas verdes, mas acredito que não só dessa cor são nossas tarefas e obrigações, por isso também tenho vontade de, às vezes, contar outras experiências.

Cresci ouvindo minha mãe dizer que a gente tem a obrigação de reclamar dos serviços que não nos atendem bem. Durante a adolescência me lembro de alguns momentos em que desejei que o chão se abrisse e eu sumisse dentro do buraco: era só minha mãe ameaçar chamar o gerente e eu tinha certeza de que pagaria mico - aliás, mico é expressão e sensação característica daquela longa fase dos 12 aos 20 anos, quando a gente acha que o certo e o bonito é ser e fazer tudo igual a todo o mundo, mesmo que estejam todos errados. 'Inda bem que um dia isso passa. Virei gente grande e, bem educadinha que fui, fiquei igual à mãe.

Na sexta-feria antes do Carnaval tive que ir ao banco e entrar na fila do caixa. Eram duas e meia da tarde da véspera do maior feriado deste país. Éramos 20 pessoas na fila e só duas moças operavam os caixas. Quando não tem solução a gente se conforma e espera, mas aquilo vai irritando, irritando, irritando…

Com a fila andando e eu chegando mais perto do balcão de atendimento comecei a perceber que, além de fazer os saques e pagamentos de contas dos clientes, as atendentes ofereciam e explicavam, a cada um que chegava na boca do caixa, como é o plano de previdência, o seguro de vida, o de carro, o de residência… Não bastasse a quantidade de gente na fila para apenas dois caixas abertos, e o banco se acha no direito de fazer a coisa demorar ainda mais oferecendo produtos e explicando procedimentos que ninguém pediu pra saber.

Se minha mãe estivesse na fila ela já estaria conversando com os da frente e os de trás e convencendo todo mundo a ir na gerente reclamar. Posso até ouvi-la dizendo "a gente tem que reclamar, porque senão eles pensam que tá todo mundo achando bom o serviço e continuam fazendo esse tipo de absurdo com o cliente. Quando só um reclama tem menos efeito do que quando todos reclamam".

Só que era eu ali, então não houve a mobilização dos enfileirados - isso é coisa de cliente profissional e eu ainda preciso me aperfeiçoar. Mas depois de ser atendida fui à gerente reclamar. Disse que não era uma reclamação contra as atendentes, particularmente, mas contra a política do banco que cobra intensivamente dos funcionários o cumprimento de metas de venda de produtos. Sei disso porque conheço gente que saiu do banco por não aguentar a pressão.

Para minha surpresa a gerente fez cara de "concordo plenamente com você" e logo foi pedindo a abertura de mais um caixa. Pena que eu tive que reclamar para isso acontecer. Depois disso fui embora e até hoje ainda não tive que voltar à fila, mas naquele dia saí do banco com a sensação boa de ter reclamado de um abuso, de ter exigido ser respeitada. Só assim as coisas por aqui um dia serão melhores. Porque todos nós sabemos como fica um país quando ninguém reclama e, sem se envolver, engole tudo do jeito que está.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Descansar

A gente devia ser obrigada a viajar de vez em quando, a cada três, quatro ou no máximo cinco meses, só para descansar. Como numa meditação, ir para um lugar onde nada acontecesse, rodeado de muito silêncio e energia boa.

É certo que a paz começa dentro da gente, mas quando ela também está do lado de fora é bem mais fácil relaxar. E mesmo que o retiro aconteça num lugar muito parecido com onde a gente vive, o fato de olhar de fora os problemas renova a serenidade que nos faz perceber que tudo tem solução. A falta d'água, a saúde da gata e o mato nascendo a cada centímetro de terra parecem dificuldades menores quando não estão sob nossa responsabilidade, mas na verdade têm o mesmo tamanho, só não estão pesando no nosso colo.

Já virou tradicional o Carnapira, e no ano que vem (e no outro, e no outro, e no outro…) a gente quer voltar a curtir o sítio da Neide e do Marcos no feriadão. Sob os cuidados desses carinhosos anfitriões e na casinha super cheia de charme, teve:

Café da manhã no jardim com vista para as montanhas

Suco de cambuci que tínhamos congelado em casa, mas que só tivemos
coragem de fazer junto com quem também valoriza

Banho na represa...

… que estava com menos água que o normal (veja o contorno de terra
que no verão não deveria existir) mas pra nadar deu

Existe uma grande diferença entre gente que vive e gente que vive bonito. Entre quem cozinha e quem cozinha com prazer. Entre quem planta e quem planta com amor. Passar dias gostosos em companhia de amigos que dão valor às coisas e querem melhorar a vida e o ambiente em que vivem ensina sempre mais um pouquinho a quem, como eu, gosta de caprichos e toques especiais.

Neide e Marcos compraram, há três anos, uma terra que havia sido pasto. Isso significa que toda a área era coberta de capim braquiária e poucas árvores haviam. De lá pra cá muito têm batalhado - com o próprio muque e a ajuda de um casal de caseiros especiais - para inverter essa paisagem e acabar com o capim sombreando a área toda com árvores. Quem olha para o Dr. Marcos no consultório, de jaleco em dias úteis, não imagina o trabalho físico do médico nos dias de descansar; e o mesmo deve acontecer com quem conhece a Neide só da coluna quinzenal no Estadão: a nutricionista poeta e sabida, que conta suas descobertas com paixão, pega pesado na roça sem parar nem pra beber água. Ela tem uma constituição camelística, diz o marido. Sinceramente, fico com inveja de não ter a energia dela. Quando eu crescer, quero ser igual quiném.

Para colaborar com o reflorestamento e a diversidade levamos o carro lotadinho de mudas - algumas que eles insistem em pagar e outras de presente, que a gente fica feliz em oferecer. No ano passado já tínhamos levado mais de trinta espécies, principalmente frutíferas, então dessa vez escolhemos algumas árvores ornamentais, que a Neide disse que anda com vontade de flores. Foi lofântera, jeniparana, abricó de macaco, além de bastante assa-peixe pra atrair abelhas (que depois descobri que lá nasce espontâneo), cabeludinha pra chupar no pé, olho de dragão, cajá mirim…



Ah, foi também uma jabuticabeira bonita, ainda de quando eu morava em São Paulo, que estava num vaso e há anos pedia para se mudar para o chão. Fiquei feliz por ela, porque casa nova melhor não há! Foto não tenho porque enquanto Neide plantava a muda com os maridos (ela tem um só, o outro era o meu) eu curtia a vida de visita folgada, copiando receitas deitada na rede.

No resto do tempo comemos muita comida boa e curtimos bonitezas e invenções. Coisas como o escorredor de louça, por exemplo, adaptação perfeita de um aramado de armário que de um lado é apoiado no parapeito da janela da pia e do outro é suspenso por uma correntinha quem vem do teto. Assim não ocupa espaço na cozinha nem molha a pia. Genial.



Dendezoca, assim como eu, mais descansou que trabalhou. E Tapioca está viva, graças a São Francisco que fez plantão especial durante a semana, quando Neide e Marcos tiveram que deixá-la sozinha.




Nós voltamos leves, agradecidos pelos dias tão gostosos, com ares de felicidade e uma sensação boa de ter ajudado um pouquinho os amigos a fazerem seu lugar melhor. Do lado de fora, porque por dentro já é só charme…



 

 




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Sobre chuva, água e eucaliptos


Finalmente está chovendo aqui. Já chegamos a 6 mm e continua, daquele tipo fraco e persistente que parece que vai se manter pelo dia todo. O mais interessante foi notar como todo mundo está feliz com isso, afinal tivemos o janeiro e o fevereiro mais secos de que temos notícia. Ao menos quem tem um mínimo de envolvimento direto com meio ambiente tem pensado e falado quase diariamente sobre isso. Tenho conversado sobre chuva e seca com a Carol, com a Neide, com minha mãe, com os vizinhos produtores de Holambra...

E ontem, papeando com a Neide, comentamos sobre um post dela de uns dias atrás que fala sobre as inúmerasplantações de eucalipto Brasil a fora. Se você pegou estrada ao menos uma vez nos últimos anos sabe do que eu estou falando. Quem gosta de coisa organizada acha bonito de ver aquela floresta toda igualzinha, simétrica, todas as árvores do mesmo tamanho (eucaliptos clonados), da mesma cor, muito bem comportadinhos.

Mas o eucalipto é espécie que chupa muita água do solo. Muita mesmo. Não é à toa que Manequinho Lopes escolheu plantar a espécie numa área brejosa que hoje é conhecida como Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Tudo ali era muito molhado, e o entomologista conseguiu secar a área e torná-la urbanizável graças ao plantio de eucaliptos. Eles estão lá até hoje, grandes e frondosos.

Acontece que as inúmeras plantações de eucalipto que vemos quando viajamos de carro têm alterado muito as características dos lençóis freáticos e das nascentes que em outros tempos jorravam abundância de água. Além disso, os tratos culturais aplicados nas áreas de plantio de eucalipto estão afetando a biodiversidade e acabando com a lavoura de pequenos agricultores vizinhos que viviam de plantar um pouquinho de milho, de tomate, de verduras...

Aqui faço uma pausa e sugiro que você assista ao vídeo que a Neide postou, que com depoimentos ilustra melhor o que estou dizendo.
Clique aqui, vá até o post e veja o vídeo, que é curtinho.

O que muita gente diz (e eu mesma já repeti isso por aí) é que é melhor plantar eucalipto do que derrubar matas nativas para aproveitar a madeira. É verdade. O pouco que resta de árvores brasileiras em ambiente natural por aqui não pode sofrer nem mais uma triscadinha. Mas, como sempre, o buraco é mais embaixo.

Por que tanto eucalipto?

A resposta, infelizmente, revela a minha responsabilidade, a sua, a da minha família, a da sua, e a de cada pessoa que usa papel higiênico, come pão, pizza, e imprime folhas de papel sulfite, entre muitas outras ações comuns na vida do século 21.

A gente pensa em árvores para fazer papel - e esse é mesmo um grande motivo das florestas plantadas - mas elas se prestam também a fornecer lenha para diversos fins. São Paulo tem a maior quantidade de pizzarias delivery com forno a lenha de todo o planeta, por exemplo, e nelas se queima muito eucalipto.

Outros grandes consumidores de lenha são as padarias, churrascarias, as indústrias de cerâmica, de cimento e as siderúrgicas – todos setores ligados ao consumo e ao desenvolvimento do(s) país(es). Daí facilmente se conclui que quando mais se consome de tudo e qualquer coisa, mais lenha a gente gasta e mais eucalipto a gente tem que plantar.


É fácil passar em frente a uma gigantesca floresta de eucalipto e pensar “que absurdo”. Mais raro é alguém que pense “tenho feito a minha parte na redução do consumo? O que é supérfluo lá em casa? O que pode ser reduzido?”. Mas sempre é tempo de começar.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Primeiros voos


Quatro semanas de Rolinha sob meus cuidados, e depois dos aprendizados de comer papinha na seringa, bicar grãos e quirera e beber água, estamos na fase mais difícil.
Como é que um ser humano ensina uma ave a voar?

O instinto começou a dar nela as primeiras cutucadas, e assim que saía da gaiola para um passeio no escritório a criança era tomada por uma vontade incontrolável de bater as asinhas. Como um helicóptero aquecendo os motores, Rolinha começava a fazer vento em cima da mesa e espalhar a papelada toda no chão. Era bonitinho de ver.

Pra mim essa foi a dica de que estava na hora de começar a estimular pequenos voos. Infelizmente (muito infelizmente!) não tenho condições técnicas de sair voando na frente, então restou chamá-la pra vir nas mãos da mamãe.




quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Despedidas

É certo que árvores caem, assim como os animais de estimação morrem e os namoros acabam. Mas não é por isso que a gente deixa de plantá-las, como continua amando gatos e cachorros e se apaixonando sempre que o coração abre uma vaguinha.

Aqui no sítio estamos numa fase de desabamentos, e nem dá pra por a culpa sempre na chuva. Grande parte das árvores daqui é bem antiga: tem jequitibá rosa de 36 anos, nogueira de 58, lichia e jaboticabeira de 60... Por isso o sítio é um delicioso ambiente todo manchado de luzes e sombras e super rico em biodiversidade. Só que como todo ser vivo, árvores ficam doentes, eventualmente sofrem acidentes, fraturas e avarias e um dia também morrem, não tem jeito. E assim como nós, quanto mais velhinhas, mais frágeis ficam.

Nessas horas a gente fica chateada, porque é sempre triste assistir a esses finais. A falecida vai embora em pedaços ou fica estirada ali mesmo, onde caiu, apodrecendo com o passar do tempo, enquanto no espaço que ela ocupava sobra aquela ausência pesada, um vazio que muda para sempre a paisagem. Os passarinhos também ficam meio órfãos - falta pouso, esconderijo e comida.

Por outro lado, é oportunidade de mudança e recomeço. É gostoso pensar numa nova espécie para por no lugar, com um formato de copa diferente, flores de um outro colorido e frutos que atraiam aves que nunca vieram.

Assim estamos, nos acostumando com o final da vida da falsa seringueira (Ficus elastica) e da nogueira (Carya illinoensis)...

Ficus meio vivo meio morto, afetado pelo fogo em maio de 2012, veja aqui

O galho da nogueira pecã caiu de velho, numa madrugada sem vento

bem em cima do tratorzinho dos anos 50 que fica estacionado no jardim

... e já com as ausências do flamboyant (Delonix regia) e da embaúba (Cecropia sp.) que acabou de cair ontem.

Há semanas o flamboyant caía aos pedaços, um galho dos grandes de cada vez

Tivemos que apelar para a motossera antes que o resto caísse sobre a casa do funcionário

A embaúba era um lindo guarda-sol na entrada da casa, mas há duas
semanas o galho de cima do telhado caiu

e a falta de todo um lado desestabilizou os outros galhos

Estrutura interior dos galhos finos da embaúba

Depois que mais um terço da copa caiu, bem em frente à varanda...

... resolvemos que era hora de acabar com todo o resto

Este janeiro parece ser o mês de despedida dessas árvores, sem explicação e por simples coincidência. Os pedaços têm caído à toa, às vezes sem nem um soprinho de brisa. Caem porque acaba a força, porque chega mesmo o fim da vida. É assim.

Ah, e nos primeiros dias do ano uma ventania derrubou uma jovem manduirana (Senna macranthera), que apesar de saudável não se aguentou de pé.

A manduirana da entrada caiu bem em frente ao portão num dia de ventania inesquecível

Sobrou o tronco partido, mostrando que a madeira é tão amarela quanto as flores

Linda, não?

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Do dedo para o pauzinho foi um pulo


Depois que as primeiras dificuldades foram resolvidas e a vida entrou no eixos, percebi que estava começando a fase de aprendizagens, então algumas coisas precisavam ser estimuladas para que um dia ela possa viver solta com as outras rolinhas. Resolvi comprar uma gaiola, porque o engradado de plástico é muito fechado e é importante tomar sol. Além disso uma gaiola é mais segura numa casa com gatos e cachorros, e é mais fácil de pendurar nas árvores.

Outra coisa que me fez decidir pela compra foi a questão dos poleiros. Na caixa ela só andava no plano, sobre o jornal, e precisava aprender a se segurar em galhos. Esse treino começou ainda dentro do escritório, quando ela tomava sol na minha mesa num fim de tarde, andando em volta do computador, e agarrou meu dedo com as patinhas.


Logo substituí o dedo pro um lápis de galho e, de tão natural que ela ficou, saquei que era mesmo preciso começar com a oferecer poleiros.


Com a moça em franco desenvolvimento (e por falta de espaço na gaiola) parei com o abajur, mas meu coração de mãe não teve coragem de desligar o calorzinho por completo, então ainda passei algumas noites deixando um tapetinho elétrico ligado embaixo da gaiola. É como uma lâmpada de 50 watts, está escrito nele. Poderia ter sido uma bolsa de água quente, mas o tapetinho estava à mão, então foi assim.

Nesse tempo as peninhas foram ficando cada vez mais penteadas e eu tive a impressão de que já não era mais preciso aquecê-la de noite, então agora só embrulho a gaiola com o cobertor, deixando aberto um lado quase todo.

Quanto à comida, segui as indicações do moço da loja agropecuária e continuei com a papinha na seringa, mas passei a deixar o comedor da gaiola com quirera e grãos variados e um copinho com água, assim logo ela começa a descobrir que tem novidade à disposição. Mas gostoso mesmo ainda é a comidinha da mamãe...


domingo, 26 de janeiro de 2014

Aprendendo a comer e descobrindo a lâmpada


Rolinha foi instalada no escritório - o único lugar da casa livre de gatos - dentro de um engradado de plástico com tampa de tela, e eu fui para o Google, pesquisar como alimentá-la. Santo Google, que tudo sabe, me ensinou que naquela hora, sexta de noite, eu poderia improvisar uma papinha com fubá e água e dar para ela numa seringa de quatro em quatro horas (menos de noite). Ensinou também que os filhotes de rolinha, diferente dos filhotes das outras espécies de aves, não abrem o bico quando a mãe chega de volta ao ninho, por isso é preciso dar uma "forçadinha" com a ponta da seringa até que eles abram as portas pro aviãozinho entrar.

O que não consegui descobrir na internet foi a densidade certa da papinha de fubá, e acabei preparando uma sopinha amarela que no primeiro dia quebrou um galho. Só que no sábado a tarde Rolinha parou de fazer cocô, e isso não é bom sinal em ser vivo nenhum. Daí fiquei com medo de tê-la entupido com o fubá denso demais e fiz duas rodadas de água pura. Também virei o bichinho de bumbum pra cima e descobri uma rolha verde entalada metade pra dentro metade pra fora. Hora de trocar a fralda.

O domingo foi um pouco tenso. Dei sopinha de fubá, água de novo, e pelo menos vi algum cocô no jornal da caixa. Só que era uma coisa muito líquida, uma água verde folha, parecia tinta, bem estranho. E Rolinha cabisbaixa, amuada no cantinho. Na segunda-feira ela amanheceu fria, tremendo, parecia que ia congelar. Corri numa loja agropecuária e voltei não só com a comida certa (ração para pássaro filhote) mas com a proporção de preparo da papinha: uma parte do pozinho amarelo para duas partes de água. Santo Google falhou nesse ponto. Isso dá uma pomada grossa que eu duvidei que entraria na seringa, e diante dela acabei descobrindo que por dois dias lavei a rolinha por dentro com muita água pra pouco fubá, por isso ela não estava bem. Também pode ter sido o ferro e o ácido fólico do fubá de gente, não sei.


Mas aí tudo mudou, porque comida certa é tudo na vida. Na manhã de terça-feira encontrei uma mocinha bem disposta passeando pela caixa e se acocorando perto da cúpula do abajur que ganhou, porque "eu não sou boba não e sei que aqui é mais quentinho". O abajur tem a haste flexível e eu apontei a cúpula para baixo, senão ficaria longe dela e nem caberia dentro da caixa. O escritório parecia um forno, com aquela luz ligada o dia inteiro, mas ela estava achando bom bem perto da lâmpada, então ficou assim.

Lá pela segunda ou terceira noite de abajur ligado me toquei que o escuro é fundamental para descansar, porque pelo menos na gente existe um hormônio do sono que só é liberado quando todas as luzes se apagam, e talvez ela ficasse estressada não tendo noite nunca. Passei então a desligar o abajur quando o sol se punha e a embrulhar a caixa com um cobertor grosso, com medo que ela voltasse a tremer de noite. De manhã desembrulhava a caixa e ligava a luz outra vez.

Com o passar da semana nós duas fomos aprendendo - eu a ser mãe de ave e ela a ser filha de gente. As horas da comida ficaram cada vez mais fáceis: uma seringa de 3 ml que antes demorávamos quarenta minutos pra esvaziar passamos a dar conta em dez, e lá pra quinta ou sexta-feira ela até já abria o bico quando eu chegava perto com a papinha - novidade no mundo das rolinhas. Comia quatro vezes por dia, tomava um pouco de sol da manhã diariamente em cima da mesa do quintal e passava o resto do dia ao lado do abajur ligado. Apesar dos trinta e poucos graus que fazia no sítio a figurinha queria tanto calor que aprendeu a entrar dentro da cúpula pra ficar bem perto da lâmpada. E eu deixei, porque ela estava ali de livre e espontânea vontade e sabia sair, que eu vi.


Continua.