sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Um poço caipira, o Sebastião Salgado e a Martha Medeiros
Demorou um pouco mais do que em outros lugares do interior de São Paulo, mas a água aqui no sítio também já começou a rarear. Toda a nossa água vem de um poço caipira de 6 metros de profundidade que nos abastece regiamente durante todo o ano. É água límpida, gostosa, que sempre dá e sobra. Mas agora falta.
Nesta segunda-feira, pela primeira vez neste inverno, o nível da água desceu mais de um metro, e conforme nosso consumo aumenta (nos dias de irrigar as mudas do viveiro de árvores, por exemplo) ele desce ainda mais um pouco, chegando quase à pontinha do cano da bomba. Se a gente bobear, ela puxa ar.
A solução foi colocar uma boia que liga a bomba quando os lençóis freáticos abastecem o poço e desliga a sucção de água quando o poço esvazia. Isso quer dizer que às vezes nossa caixa d'água enche, outras não. Isso quer dizer que às vezes tem água pra tomar banho, às vezes não. E o mesmo pra regar as plantas, lavar a louça, a roupa, escovar os dentes…
No início da semana terminei de ler Da minha terra à Terra, livro em que o famoso fotógrafo Sebastião Salgado conta sua história de vida e sua experiência trabalhando ao redor de todo o mundo, de áreas de grandes mazelas sociais, como muitos países da África, a lugares de paisagem inesquecível, paraísos na Terra. Todo o texto é muito bonito e cheio de reflexões sobre o mundo e a raça humana, mas o que mais me tocou foi a reflexão ao final, na conclusão, onde ele diz algumas coisas importantes:
- … o homem das origens é muito forte e muito rico em algo que fomos perdendo com o tempo, tornando-nos urbanos: nosso instinto.
- Vi o que éramos antes de nos lançarmos à violência das cidades, onde nosso direito ao espaço, ao ar, ao céu e à natureza se perdeu entre quatro paredes. Erguemos barreiras entre a natureza e nós. Com isso, nos tornamos incapazes de ver, de sentir…
- Se em meu livro Trabalhadores fiquei orgulhoso por poder mostrar que somos um animal incrivelmente engenhoso na capacidade de produção, também vi que, em nossa maneira de viver, fizemos de tudo para destruir aquilo que garante a sobrevivência de nossa espécie.
Depois de terminar esse livro andei folheando A graça da coisa, da Martha Medeiros, espetacular coleção de crônicas guardada na minha estante entre outros livros dela, lidos sempre com muito prazer. Na página 40 está Alguém quem?, texto publicado num jornal do Rio de Janeiro ou de Porto Alegre em 20 de novembro de 2011.
Filosofando sobre aquele tão familiar pensamento do "alguém tem que fazer alguma coisa" ela fala de mim e de você que, por arrogância ou egoísmo, nos anunciamos muito capazes, mas quando a teoria necessita ser posta em prática, somos os primeiros a transferir responsabilidades.
Nessa parte do texto, lendo deitada, fechei o livro sobre o peito e fiquei lembrando da imagem da pouca água lá no fundinho do poço. Somos cinco adultos morando no sítio e ainda temos direito ao espaço, ao ar, ao céu e à natureza que, segundo Sebastião Salgado, a maioria das pessoas já perdeu. Além disso (e por causa disso), ainda preservamos um pouco do nosso instinto e interagimos com a natureza tentando nos integrar sempre mais e entendê-la.
Talvez muitos dos moradores das cidades já tenha se dado conta de sua responsabilidade no uso correto da água que chega às torneiras, mas certamente muitos ainda transferem responsabilidades dizendo que alguém tem que fazer alguma coisa. Quando se mora numa comunidade enorme, onde é impossível acompanhar tudo o que acontece na cidade - e eu passei a maior parta da vida em lugares assim - acho que a gente tem a sensação de que existe ali uma infra-estrutura pronta para nos servir seja lá qual for a nossa demanda. É muito comum ouvir gente dizendo "eu pago, eu tenho direito". Isso, aliás, acontece muito em relação a lixo: "eu pago os impostos que pagam os salários dos varredores de rua, então quando jogo lixo no chão eu estou dando emprego a eles". Eu já ouvi isso, juro.
Basta a gente se mudar para um mini lugar, onde está nas nossas mãos o controle de tudo o que entra ou sai, funciona ou quebra, tem ou falta, que a gente percebe a responsabilidade de cada um no funcionamento do todo. Somos cinco aqui pra dividir aquela aguinha no fundo do poço. Se usarmos com inteligência e educação, vai dar pra hoje e pra amanhã. Se bater um egoísmo, acaba hoje mesmo para as pessoas, os animais e as plantas, que são o comércio que nos sustenta. E aí toda a engrenagem emperra.
O raciocínio e o funcionamento são os mesmo numa pequena, numa média ou numa grande comunidade, e certamente todo mundo já sabe disso. O que falta é se perceber responsável, ao invés de esperar que alguém faça alguma coisa, e usar com muito respeito aquilo que garante a sobrevivência da nossa espécie.
quinta-feira, 6 de março de 2014
Descansar
É certo que a paz começa dentro da gente, mas quando ela também está do lado de fora é bem mais fácil relaxar. E mesmo que o retiro aconteça num lugar muito parecido com onde a gente vive, o fato de olhar de fora os problemas renova a serenidade que nos faz perceber que tudo tem solução. A falta d'água, a saúde da gata e o mato nascendo a cada centímetro de terra parecem dificuldades menores quando não estão sob nossa responsabilidade, mas na verdade têm o mesmo tamanho, só não estão pesando no nosso colo.
Já virou tradicional o Carnapira, e no ano que vem (e no outro, e no outro, e no outro…) a gente quer voltar a curtir o sítio da Neide e do Marcos no feriadão. Sob os cuidados desses carinhosos anfitriões e na casinha super cheia de charme, teve:
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| Café da manhã no jardim com vista para as montanhas |
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| Suco de cambuci que tínhamos congelado em casa, mas que só tivemos coragem de fazer junto com quem também valoriza |
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| Banho na represa... |
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| … que estava com menos água que o normal (veja o contorno de terra que no verão não deveria existir) mas pra nadar deu |
Existe uma grande diferença entre gente que vive e gente que vive bonito. Entre quem cozinha e quem cozinha com prazer. Entre quem planta e quem planta com amor. Passar dias gostosos em companhia de amigos que dão valor às coisas e querem melhorar a vida e o ambiente em que vivem ensina sempre mais um pouquinho a quem, como eu, gosta de caprichos e toques especiais.
Neide e Marcos compraram, há três anos, uma terra que havia sido pasto. Isso significa que toda a área era coberta de capim braquiária e poucas árvores haviam. De lá pra cá muito têm batalhado - com o próprio muque e a ajuda de um casal de caseiros especiais - para inverter essa paisagem e acabar com o capim sombreando a área toda com árvores. Quem olha para o Dr. Marcos no consultório, de jaleco em dias úteis, não imagina o trabalho físico do médico nos dias de descansar; e o mesmo deve acontecer com quem conhece a Neide só da coluna quinzenal no Estadão: a nutricionista poeta e sabida, que conta suas descobertas com paixão, pega pesado na roça sem parar nem pra beber água. Ela tem uma constituição camelística, diz o marido. Sinceramente, fico com inveja de não ter a energia dela. Quando eu crescer, quero ser igual quiném.
Para colaborar com o reflorestamento e a diversidade levamos o carro lotadinho de mudas - algumas que eles insistem em pagar e outras de presente, que a gente fica feliz em oferecer. No ano passado já tínhamos levado mais de trinta espécies, principalmente frutíferas, então dessa vez escolhemos algumas árvores ornamentais, que a Neide disse que anda com vontade de flores. Foi lofântera, jeniparana, abricó de macaco, além de bastante assa-peixe pra atrair abelhas (que depois descobri que lá nasce espontâneo), cabeludinha pra chupar no pé, olho de dragão, cajá mirim…
Ah, foi também uma jabuticabeira bonita, ainda de quando eu morava em São Paulo, que estava num vaso e há anos pedia para se mudar para o chão. Fiquei feliz por ela, porque casa nova melhor não há! Foto não tenho porque enquanto Neide plantava a muda com os maridos (ela tem um só, o outro era o meu) eu curtia a vida de visita folgada, copiando receitas deitada na rede.
No resto do tempo comemos muita comida boa e curtimos bonitezas e invenções. Coisas como o escorredor de louça, por exemplo, adaptação perfeita de um aramado de armário que de um lado é apoiado no parapeito da janela da pia e do outro é suspenso por uma correntinha quem vem do teto. Assim não ocupa espaço na cozinha nem molha a pia. Genial.
Dendezoca, assim como eu, mais descansou que trabalhou. E Tapioca está viva, graças a São Francisco que fez plantão especial durante a semana, quando Neide e Marcos tiveram que deixá-la sozinha.
Nós voltamos leves, agradecidos pelos dias tão gostosos, com ares de felicidade e uma sensação boa de ter ajudado um pouquinho os amigos a fazerem seu lugar melhor. Do lado de fora, porque por dentro já é só charme…
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Sobre chuva, água e eucaliptos
terça-feira, 7 de maio de 2013
Sobre árvores, crianças, minhocas, geotropismo...
Se sair por aí para plantar árvores já é gostoso, imagine quando a gente leva junto um grupo de crianças de quarta e quinta séries animadíssimas para por a mão na massa. Assim foi hoje de manhã, e todos nós nos divertimos à beça.
Teve repórter e fotógrafo do jornalzinho da cidade acompanhando a meninada, o prefeito, o secretário do meio ambiente, o vereador e mais um tanto de adultos que foram participar. Todos sujaram as mãos de terra sem frescura, e no fim faltou espaço e sobrou vontade de plantar mais.
Eu estava preparada para momentos de bagunça, eventuais chamadas de atenção e puxões de orelha, porque sempre tem uns mais atentados, mas hoje esses ficaram em casa. Na hora das primeiras explicações e demonstrações de como se faz, só vi olhinhos atentos e preocupados em não errar. Os mais curiosos e extrovertidos perguntaram muitos por que isso e por que aquilo, e foi ótimo porque acabei entrando em assuntos que eu não imaginava que explicaria.
Falei de minhocas, "transpiração" das árvores, cidadania e até sobre foto e geotropismo, para responder a pergunta de um pequeno que queria saber por que as plantas crescem para cima mesmo quando a gente as deixa de lado.
Crianças e políticos gostaram de aprender que plantas se movimentam respondendo a estímulos externos, e a esses movimentos se dá o nome tropismo - da palavra grega trope, que signigica volta ou giro. Geotropismo e fototropismo são os movimentos mais comuns, feitos por praticamente todas as espécies vegetais, e estão relacionados à terra e à luz, respectivamente.
Quando um lado da planta recebe mais luz do que o outro, hormônios chamados auxinas fazem o lado do caule que pega menos luz crescer mais que o outro lado, dai a planta vira para a direção da luminosidade. Isso se chama fototropismo positivo.
Geotropismo é o movimento estimulado pela força da gravidade. Quando uma planta é colocada na horizontal, os hormônios auxinas vão para a parte do caule que está voltada para o solo, fazendo com que ela cresca mais que a outra parte, assim o caule se curva para cima e a planta passa a crescer na vertical. Esse é o geotropismo negativo, já que vai contra a gravidade.
As raízes têm movimento geotrópico positivo, uma vez que crescem para baixo, em direção à força da gravidade. As auxinas fazem a parte superior das raízes cresceram mais que a inferior, então elas crescem sempre voltadas para o centro da terra.
Era só pra mostrar como se planta, mas de tão curiosos que eram, os alunos acabaram me estimulando a explicar mais, e minhas explicações os estimularam a perguntar mais, e assim ficamos todos bem estimuladinhos. Acho que por isso foi tão gostoso! Deixo umas fotos, pra você curtir também.
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| O trabalho em dupla sempre funciona melhor, porque um lembra o outro do que a "tia" explicou. |
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| Todas as mudas foram tutoradas direitinho pelas crianças, com barbante de algodão em forma de oito. |
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| Seu Pedro Weel, vereador, não resistiu e plantou também |
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| Depois de duas horas de trabalho deixamos pronta uma florestinha, que em cinco anos estará como a do outro lado da rua |
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Gratidão
O De Verde Casa ainda não voltou oficialmente das férias, mas foi irresistível passar por aqui para mostrar uma descoberta emocionante: a primeira ninhada de passarinhos de uma área reflorestada por nós, em 2011, na região de Campinas.
É lindo encontrar um ninho de coleirinho (Sporophila sp.) numa árvorezinha de pouco mais de 1 metro que foi plantada e cuidada pelas suas próprias mãos. É assim que a natureza agradece por um projeto de reflorestamento.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Para você, que um dia chupou fruta no pé
CamomilaRosaeAlecrim foi a primeira a comentar o post sobre as jaboticabas e contou que lembrou da infância, quando tinha um pé desses no quintal.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Paina para dar e vender
Depois de alguns dias no sol chega a hora de pisar nos frutos, e aqueles que estão no ponto de abrir fazem um croc debaixo do pé. Cuidado nessa hora: o croc vicia e você não quer mais parar de pisar em frutos. É como estourar plástico-bolha. E não adianta querer apressar a coisa e pisar mais forte para forçar o croc; as sementes dos frutos que não amadureceram o suficiente são brancas e não germinam, enquanto que nos bem maduros elas são escuras, quase pretas.
Feito o croc, a casca se racha e o miolo está solto, com a paina ainda úmida e bem compactada. Parece um cérebro em forma de espiga de milho.
Esse é o ponto de abrir o miolo úmido e tirar as sementes...
...porque se deixar passar algumas horas a paina começa a secar, estufar e o que antes era compacto vai virando um imenso tufo que se desmancha. Quando isso acontece fica bem mais difícil tirar as sementes, que se embaraçam nas fibras brancas e leves, já querendo voar com elas.
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| Miolos ainda fechados, secando e estufando |
A paina que sobra depois da retirada das sementes é um excelente enchimento para travesseiros, almofadas, bonecas de pano e o que mais você quiser fazer de fofo e gordinho. É a versão natural (e original) do plumante, fibra industrializada. Nos idos tempos em que as mulheres "só" cuidavam da casa, dos filhos, da comida e da costura da roupa de toda a família, eram recheados de paina os objetos fofos do lar.
Por ser nativa do Brasil, a paineira está presente na história de sítios e fazendas pelo país a fora, e além de abundante, cresce rápido e produz muitos frutos, então fornece paina para dar e vender. Pergunte para uma avó, tia ou conhecida de mais idade.
Durante a retirada das sementes fomos desmanchando os "gomos" dos frutos, que têm organização parecida com a de uma laranja: uma parte de fibra e uma divisória, uma fibra e uma divisória. Assim as divisórias já foram sendo descartadas e sobrou só a paina, limpinha, que depois de algumas horas de sol perdeu a umidade, soltou as fibras, cresceu e ficou pronta para virar recheio.
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| Paina limpa mas ainda úmida e compactada |
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| Cabinhos dos frutos e películas divisórias dos "gomos" |
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| Paina seca com as fibras soltas, bem fofas |
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| Sementes prontas para o plantio |
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Eucalyptus deglupta, a árvore dos seus desenhos de infância
Se você desenhava árvores coloridas quando era criança e se lembra de ouvir risadas de coleguinhas que diziam "não existe árvore desse jeito", esse post é para você.
Sim, sua árvore existe e se chama Eucalyptus deglupta (nome popular: Eucalipto arco-íris).
Eu vi, fotografei e posso jurar que é de verdade.
O Eucalipto arco-íris tem o tronco revestido por uma fina casca marrom que se desprende conforme a árvore cresce, revelando novas cascas multicoloridas de incrível efeito ornamental. As nuances de verde, amarelo, roxo, azul, laranja e rosa, entre outros tons, se tornam marrons ao amadurecer e se desprendem expondo novas cores, o que faz do tronco um espetáculo mutante, sempre com um novo colorido. É bonito demais.
A espécie é nativa da Nova Guiné, Indonésia e Filipinas, mas se adaptou muito bem ao clima do Brasil. Eu já comprei (e já plantei!) a minha, além de mais duas para dar de presente.
E você, quer brincar de colorir paisagens também?
Entre em contato com o Edilson Giacon, que produz o que há de mais especial no mundo das plantas, e encomende o seu, que chega rapidinho pelo correio.
E capriche na escolha do lugar de plantio. Fuja de postes, fiação elétrica, muros, construções e calçadas estreitas. O ideal é que a árvore seja plantada em uma boa área verde, um parque ou praça de grandes proporções, porque hoje ela é uma pequena e inofensiva muda, mas no futuro será uma grande árvore de 20 a 25 metros que de pé só trará felicidade, mas na horizontal...
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Cambuci, a lição
esparramadas cuidadosamente sobre mesas de areia
e cobertas com terra, para manter a umidade. Também ganharam plaquinha com data, o nome de vocês e muita torcida.
Daqui a 60 dias teremos crianças despontando, com certeza.
E a sensação que fica é a de que essa interessante fruta ácida, de formato curioso e perfume tão gostoso, para mim se transformou numa lição. Reproduzi-la o máximo possível todos os anos jamais retribuirá todo o aprendizado e os momentos especiais que essa missão me proporcionou.
A todos os amigos e colaboradores que, junto comigo, curtem participar dessa brincadeira tão séria, um enorme OBRIGADA e até o ano que vem, no máximo!
quarta-feira, 8 de junho de 2011
As deliciosas histórias da Missão Cambuci
Se antes já me empenhava em trocar mudas, sementes e experiências por aí, agora então faço questão de retribuir toda a ajuda que me deram na coleta de frutos dessa espécie ainda em risco de extinção, nem que tenha que revirar caçambas de lixo em busca de meus frutos podres jogados ali sem querer ou confinar pequenas árvores dentro de uma caixa de camisa e mandá-las por correio em viagem de 10 dias rumo a Porto Seguro.
Foram três meses de e-mails, conversas, pesquisas e bastante estrada atrás de qualquer quantidade de sementes que se pudesse conseguir. De algumas cidades voltei com um único fruto na mão. De outras, vieram quilos e quilos de cambuci em todos os estados de conservação que se possa imaginar, do mais saboroso e perfumado ao mais podre e fedido. E para fazer valer cada e-mail enviado e cada litro de gasolina gasto na empreitada, todos os frutos foram cuidadosamente despolpados e tiveram suas sementes selecionadas, processo trabalhoso que levou dias e dias até ser finalizado.
A boa notícia é que o número é grande: são 4.773 sementes viáveis sendo regadas diariamente e recebendo cuidados dignos de estrela. E vale lembrar que apenas cerca de 25% das sementes de um cambuci são viáveis, ou seja, tem possibilidade de germinar, então calcule o quanto de sementes conseguimos!
Por isso, para mostrar que quando cada um faz um pouquinho o resultado é incrível, a seguir conto as histórias de quem topou abraçar comigo essa causa.
Coletas secretas
No começo, quando éramos só eu e eu nessa aventura, passei algumas semanas monitorando os três únicos pés de cambuci adultos que conheço na cidade.
Um deles, na rua, tem a copa muito alta e nas primeiras visitas que fiz não encontrei nenhum fruto no chão. Era preciso continuar monitorando até que amadurecessem mais um pouco e começassem a cair. Só que, depois de duas semanas quando voltei ao pé, não sei via mais um único cambuci em lugar nenhum, no chão ou na copa. Algum coletor de sementes mais rápido do que eu deu cabo de tudo. Primeira decepção.
Outra árvore, pequena ainda e na rua também, tinha só dois frutos quando a visitei pela primeira vez, mas estavam ainda muito duros e não tive coragem de arrancá-los antes da hora. O cambuci, assim como o abacate, tem a casca verde mesmo quando está maduro, então só se sabe se está bom para colher apalpando a fruta. Nesse dia também fui embora de mãos abanando e, quando voltei lá, não encontrei mais nenhum. Segunda decepção.
Restava a terceira árvore, dentro de um parque municipal onde dizem que não se pode coletar nada. Já sabendo que é uma árvore das boas e que no ano passado produziu bastante, resolvi não correr riscos e a cada visita levar comigo alguém que me desse cobertura. As instruções para os acompanhantes eram:
1) Enquanto encho meu saquinho secreto (camuflado dentro de uma bolsa grande) fique de olho e me avise se vier alguém do parque.
2) Faça sempre cara de paisagem. Tem tudo a ver com o lugar.
3) Se alguém vier reclamar e dizer que não se pode pegar frutos, finja que não me conhece e eu me viro sozinha. Melhor só uma metida nisso.
Deu tudo certo e saímos incólumes (e abastecidas!) de todas as investidas, então ficam aqui meus sinceros agradecimentos às amigas que corajosamente me acompanharam em nome da preservação da espécie: Helô, Bia e Mari L.
Um ecólogo alto astral
Escalado pela minha mãe para ajudar na Missão Cambuci, o Vitor, ecólogo e professor mais sabido e divertido que eu conheço na área, aproveitou o dia de aulas que deu em um parque para coletar frutos num pé que conhecia. Logo chegou um e-mail: Ju, pode vir buscar, tem um tanto aqui pra você.
Passaram mais uns dias e recebi outro e-mail: Ju, tenho mais.
Mas antes de conseguir encontrá-lo veio mais uma mensagem, desta vez triste: Ju, minha tia velhinha viu aquele monte de frutos podres e, achando que era lixo, jogou tudo fora. Semana que vem tento mais uma coleta.
Sem comentários sobre a tia velhinha.
Sorte que dentro de mais alguns dias veio outro e-mail: Ju, mais. Estão ao lado da minha mesa em cima de um vaso com o seu nome. São de uma variedade pequena mas bastante doce. Estão meio podres, já, e os colegas de trabalho reclamando que está fedido, mas é história deles; eu não sinto nada. E já avisei que é proibido jogar fora! Se eu não estiver aqui quando você chegar, pode entrar e levar.
Vitor, muito muito obrigada. Conte comigo para o que precisar, e assim que as mudas estiverem grandinhas me diga quantas quer e te entrego sem pestanejar.
A dupla dinâmica
Sair do sítio da Mari e da Carmem sem a certeza de ter conhecido o significado da expressão “calor humano” é impossível. Na chegada já tem festa como se fôssemos amigas há anos, com beijo, abraço, sorriso, boas vindas da cachorrada, gato trançando nas pernas, cafezinho, biscoito, um monte de histórias divertidas e o almoço pronto esperando. Isso porque a ideia era coletar o que elas tem no quintal, mas parecia que quem estava fazendo o favor era eu.
Depois de duas visitas, muitas risadas e andanças pra conhecer o sítio, ganhei geléia de cambuci feita por elas e sementes já prontas para plantar, além dos frutos propriamente ditos. E mais folhas de flor de cera para fazer mudas, bulbos de dália, de clívia, mudinhas de suculenta, sementes de anis estrelado, de rambutan e um caroço de abacate. Só esses 10 itens porque recusei outros 23 que Mari ofereceu, tentando convencê-la de que agora quem precisa de um sítio sou eu!!!
Mari e Carmem, como agradecer tanto carinho?
Muito obrigada por tudo e são de vocês todas as mudas de cambuci que nascerem, me digam quantas querem.
Rosana, Henrique e os ouriços
De Mogi das Cruzes, no início de abril, chegou o e-mail da Rosana: Tenho um pé de cambuci a pleno vapor, separei um tantão de frutos para vc. A árvore frutifica de 3 a 4 vezes por ano. Entre em contato.
Era pra já! Em dois ou três dias combinamos tudo e, sorrindo de orelha a orelha, parti para Mogi das Cruzes, escala de uma viagem a São José dos Campos para ajudar a babar, quero dizer, cuidar do sobrinho recém nascido.
Fui recebida com pão de queijo quentinho e suco de cambuci feito na hora. Não é demais? Batemos um papinho de uma hora e segui viagem, já mais de nove da noite, levando na bagagem cambucis maduros e cheirosos (ô fruta de cheiro bom!), cambucis podres para extrair sementes e ainda polpa de cambuci congelada, pra fazer suco e mousse.
De presente levei mudinhas de árvores de três espécies, mas mesmo assim fiquei até meio sem graça com o tanto de coisas que ganhei, a quantidade de pães de queijo que comi e todo o suco de cambuci que bebi! Minha mãe tinha me dado mais educação...
Cheguei a São José dos campos para uma estada de quatro ou cinco dias e escolhi um canto da varanda onde deixar o saco de cambucis podres até o dia de ir embora. O cheiro de vinagre é forte, não dá pra ficar com aquilo por perto. Mas sem me esquecer da tia do Vitor, avisei a todos da casa que ali estavam minhas preciosas sementes, não era pra mexer no saco.
Passados os meus dias de tia babona de primeira viagem, me ajeitei para tomar a estrada de volta e, na hora de ir embora, cadê os cambucis?
Juro que por alguns minutos dei uma de maluca e andei em círculos olhando em volta e repetindo “cadê eles?, cadê eles?, cadê eles?”. Eram 4, 5, 6 quilos de frutos e tinham sumido! Logo caiu a ficha que alguém que foi ajudar na faxina da casa naquele dia não sabia do que se tratava e jogou tudo no lixo.
Não, lixo de novo não!
Corri para o interfone e o porteiro me disse: tá tudo aqui ainda, o lixeiro só passa mais tarde.
Num passe de mágica lá estava eu, protagonizando espetáculo na calçada do prédio, abrindo caçamba por caçamba, saco de lixo por saco de lixo atrás dos cambucis da Rosana.
O porteiro parou do meu lado e disse: já sei, você jogou seu celular no lixo! A moça do 72 também fez isso outro dia. Às “veiz” bate uma bobeira e a gente faz essas coisas, é normal.
Eu dei risada e resolvi explicar que não era o celular, era pior! Era um fruto em risco de extinção e eu tinha arrumado sementes pra plantar. E então ele me surpreendeu: Extinção? É sério? Ah, mas então nós vamos ter que achar isso!
Nesse momento Tomé virou meu herói. Tem amigo meu que não diria uma frase dessas.
E foi um tal de conhecer a intimidade dos apartamentos vizinhos até que... Maktub! Dentro do enésimo saco preto que abri estava a sacolinha do supermercado Maktub de Mogi das Cruzes, onde a Rosana faz compras. Maktub, em árabe, que dizer “estava escrito”. E estava mesmo. Aqueles cambucis eram meus e ninguém tascava!
Depois dessa experiência inesquecível ainda voltei mais uma vez a Mogi, recentemente, porque como tinha dito a Rosana, a árvore do sítio frutifica de 3 a 4 vezes por ano e ela tinha mais frutos pra mim. Dessa vez cheguei e a encontrei, junto com Henrique, em volta de uma banheira infantil de plástico, na calçada, tomando sol. Dentro da banheira dois ouriços, animais da savana africana. São criaturas acostumadas ao calor, e como os dias do fim de maio vinham sendo cada vez mais frios, era preciso esquentá-los um pouquinho.
Não, isto não é um cambuci! É o ouriço do Henrique, filho da Rosana
De novo ganhei lanchinho e, desta vez, suco multi frutas preparado pelo Henrique além de um tanto maior ainda de cambucis podres. Nunca vi alguém ficar tão feliz com um sacão de frutas estragadas!
Rosana, não tenho palavras para explicar para quem não te conhece o quanto você é delicada e simpática. Muito obrigada pela acolhida sempre tão carinhosa, pelos quilos de cambucis bons, “ruins”, pelas polpas congeladas, pães de queijo, bolo de cenoura...
E vamos plantar por aí mais dessa espécie pela qual nós duas temos tanto carinho. Me diga quantas mudas quer e elas são suas.
Depois de tudo isso veio a hora de despolpar os frutos. Eu e Flop, dono do Viveiro Oiti, em Holambra - SP, passamos horas e horas sentados em frente a uma peneira e uma torneira com a mão na massa, uma massaroca úmida e com forte cheiro de vinagre, separando a casca e a polpa das sementes.
A etapa seguinte foi passar as sementes pela peneira, lavando com um jato forte de água para tirar os restos de polpa, que continua a apodrecer sob a terra e pode por a perder todo o processo de germinação.
Então as sementes limpinhas foram postas para secar à sombra sobre folhas de jornal e depois selecionadas uma a uma, trabalho que consiste em separar as vazias das “gordinhas”, as chamadas sementes viáveis.
Depois disso as escolhidas foram colocadas em tubetes sob fina camada de terra, serão regadas diariamente e devem demorar cerca de 60 dias para mostrar as primeiras carinhas. Isso deve acontecer no final de julho.
Agora, só no ano que vem. O cambuci floresce entre novembro e dezembro e seus frutos amadurecem de março a maio, quando aliás acontece o Festival do Cambuci, em Paranapiacaba – SP, e a Rota do Cambuci, em um circuito de cidades do interior paulista. Nessas festas é possível provar quitutes preparados com essa fruta tão simpática quanto desconhecida – muitos paulistanos acham que Cambuci é apenas o nome de um bairro.
A Rota do Cambuci ainda não visitei, mas em Paranapiacaba este ano tomei suco, comi bolo de chocolate com cambuci (é d e l i c i o s o!), mousse, trufa recheada e ainda comprei umas garrafas de pinga da fruta para dar de presente. Ano que vem vou fazer tudo igual outra vez!
Abaixo, a plantação de que tenho tanto orgulho. Ainda não se vê nada, claro, mas dentro de cada tubete está uma das sementes dessa história. E tudo sendo cuidado com carinho pelas mãos profissionais do Flop, a quem, junto com a mamma, falta agradecer por todo o empenho e apoio nessa empreitada. Muito obrigada!
terça-feira, 3 de maio de 2011
Notícias
Ando às voltas com trabalho e um tanto de frutos que ganhei de novos amigos trazidos pela Missão Cambuci. Vou extrair as sementes antes que percam o poder de germinação e logo logo volto, para contar o saldo da campanha contra o desaparecimento dessa espécie nativa tão simpática.Até dentro de caçamba de lixo me enfiei pela causa. Não perca os próximos capítulos!













































