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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Carnaval no jardim

Flores, Arthur (que nem veio pra almoçar mas não resistiu, Marcos e Neide)

No domingo, repetindo pela terceira vez o que eu já chamo de tradição desde a segunda, nos encontramos Neide, Marcos, Flores e eu para ao menos um dia juntos durante o carnaval. Nos anos anteriores fomos ao sítio deles carregados de plantas para enriquecer a diversidade por lá - plantas são o nosso assunto. Desta vez eles vieram a Holambra, no nosso sítio, carregados de comidinhas, folhas e flores secas para chá, frutinhas para sobremesa, maracujá para semear… comidas são o assunto deles.

Não houve muito planejamento, mas eu e Neide trocamos por celular algumas mensagens sobre fazer macarrão caseiro colorido. Minha irmã Mari, a Mariana Valentini da Brodo Rosticceria, fez lindas gravatinhas coloridas para o carnaval que eu só vi pelo Instagram mas que me inspiraram bastante. Comer é uma delícia, e comer comida bonita é melhor ainda. Em boa companhia então…

Pois ficou combinado que almoçaríamos massa. A Neide, sempre muito prática e animada, ofereceu de trazer a máquina e flores azuis de Clitoria ternatea para testarmos a cor na comida. Eu botei na roda a primeira moranga colhida este ano no jardim e beterrabas, assim teríamos três cores no prato.


Só que das caixas vindas da cozinha do blog Come-se saíram muito mais do que ingredientes para chás e macarronada. Veio uma tigelona de coxas de frango para os que comem carne, uma boa fatia de melancia, um punhado de siriguelas, maracujás de duas espécies para sucos e mudas, uma metade de limão siciliano que só hoje encontrei esquecida na geladeira… É interessante como para quem trabalha com comida é tudo muito simples. Rapidinho junta-se uma coisa com outra com outra e com outra e vai a assadeira cheia para o forno. O processador de alimentos (que também veio na mala) em um instante transforma tomate fresco com melancia e temperos em um delicioso gazpacho pra comer como entrada. E enquanto eu fico pensando se é melhor juntar dois disso com três daquilo ou ao contrário, a Neide já bateu a massa de abóbora e eu nem vi como ela fez.

O gazpacho ficou delicioso. Acho que
quero ter um processador de alimentos...

Uns minutos depois já estavam prontas três bolas de massa: a azul clarinha, colorida com flores de Clitoria ternatea; a amarela, feita com abóbora moranga e uma roxinha linda, de beterraba. O próximo passo era instalar a máquina numa superfície grande pra trabalhar, e a despeito das moscas e dos cachorros de plantão, Neide escolheu montar a traquitana toda lá fora, na grama, sob a sombra da Teca.

No melhor estilo gambiarra, com cadeiras viradas sobre a mesa e um pedaço grande de cano de pvc, foi montado um varal para secar os fettuccines, e num minuto em que deixei a cozinha para ir ao banheiro ouvi risadas e fui chamada às pressas. Corre, vem fotografar! Não sei muito bem como aconteceu, mas em questão de segundos a primeira leva de massa de abóbora escorregou do varal de cano e foi parar na grama, e em mais um piscar de olhos os três cachorros devoraram aquilo tudo.


Depois das melhorias no varal para evitar futuras perdas vieram lindos fettuccines azuis e roxos combinando com a camiseta da cozinheira, e comemos nossa macarronada com molhinhos de manteiga e sálvia e de tomate, junto com as coxas de frango e fatias de abóbora assadas com temperinhos da horta. Isso é que é almoço de domingo!



Marcos, o companheiro que acompanha,
espantava moscas e ajudava na produção da massa





Hoje acordei pensando em contrastes.
A massa foi a Neide que fez e o molho fui eu, com tomates pelados de lata mas quase sem processamento industrial. A manteiga era de pacote mas a sálvia é produção da casa. Os corantes da comida eram totalmente naturais: beterraba, abóbora do quintal e flores da horta da Neide. Comemos na mesa sobre a grama, debaixo de uma árvore bonita, com moscas e cachorros por perto, sem muitos problemas.

Agora pense em alguém que more num apartamento. Pode ser você, pode ser eu, que já fui muito urbana. Essa pessoa acorda lá no alto, décimo segundo, vigésimo quinto andar. Olha pela janela só pra saber se faz sol ou se chove e se enfia rápido numa roupa, café solúvel numa mão, bolacha de pacote na outra. Pega o elevador com o vizinho que nem responde o bom dia e aperta o G3, a garagem mais do alto. Entra no carro, afivela o cinto e logo se entala no trânsito; cinquenta minutos pra chegar ao trabalho. O prédio de escritórios fico no topo de um shopping, daqueles com muitos níveis de garagem. De novo o G3. Estacionamento cheio, vaga apertada, elevador lotado, a mesa tomada de pilhas de papel e um monte de e-mails para responder. Na hora do almoço a praça de alimentação salva: um salgado frito com refrigerante diet, porque não vai dar tempo de almoçar direito. De tarde telefone, computador, reunião no ar condicionado, cafezinho da máquina no copinho plástico, mais computador, mais telefone… Acaba o expediente e o dia termina como começou, só que ao contrário: mesa ainda tomada de papéis e os e-mails a responder, elevador lotado, vaga do carro apertada, fila pra passar pela cancela do estacionamento, uma hora e vinte no trânsito até chegar em casa, G3, elevador com os vizinhos… e chega o momento relax: um banho quente (mas rápido por causa do rodízio de água), pijaminha de malha feito de fio de garrafa PET (sustentável) e um jantarzinho leve (salada hidropônica com nuggets de vegetais e um chá gelado, daqueles de misturar o pozinho na água. Sabor pêssego).

Essa pessoa (eu, você, alguém da sua família) não colocou o pé na Terra! Não digo descalço, na terra terra, aquela que tem minhocas, falo do planeta Terra! O dia inteiro se passou no alto, em andares de cimento. Os deslocamentos foram dentro do carro, as garagens eram elevadas, o almoço foi na praça de alimentação do shopping... Essa criatura não pisou numa calçada que seja, muito menos em um só metro quadrado de grama. Capaz que não tenha reparado no céu, não escutou um pio de pomba e nem comida de verdade comeu. Nem bebida de verdade bebeu! E pelo que me consta não inventei nenhum absurdo, nada que eu, você e seus conhecidos não tenhamos feito muitas e muitas vezes em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte…

Antes que você me chame de Pollyanna, deixe-me dizer que não acho que tenhamos todos que nos mudar para ecovilas, plantar nossa própria comida, costurar nossas próprias roupas, vender nossos carros… Adoro dirigir, uso computador todos os dias, tenho pilhas e pilhas de papel sobre a mesa e dezenas de e-mails a responder, mas tenho tentado andar pelo caminho do meio. Planto horta (quando morava em São Paulo plantava em vasos), sento na grama com os cachorros no colo, como comida de verdade feita por mim em oitenta por cento das refeições, boto um tênis e vou correr na rua e tento, diariamente, melhorar minhas escolhas. Já morei em diversos lugares diferentes, já trabalhei com coisas saudáveis e com insalubres também, e a cada dia que passa acho mais importante e prazeroso o contato diário com a Terra. E mais: não conheço ninguém que tenha feito o caminho contrário sem ao menos cultivar um plano de, no futuro, voltar às raízes.

É um caminho sem volta. Quanto mais a gente planta, mais quer plantar. Quanto mais pensa na comida, mais se dedica a fazê-la saudável. Quanto mais põe a mão na terra, senta na grama e corre na rua, mais sente falta disso tudo quando por algum motivo não pode fazer. E tem mais uma coisa bem interessante: a gente começa a se relacionar com pessoas que fazem o mesmo, que pensam igual, que andam pela mesma trilha sem querer voltar pra trás. É o caso da minha amizade com a Neide. Quando eu morava em São Paulo, trabalhava muito perto da casa dela e era um pouco aquela pessoa que não tinha tanto contato com a Terra, a gente não se conhecia. Agora que ficamos amigas, pergunta se eu quero passar um Carnaval sem ela???

quinta-feira, 7 de março de 2013

Como escolher gérberas que durem


Sortuda é o mínimo que se pode dizer de alguém que sempre adorou gérberas e acaba indo morar num sítio cercado delas por todos os lados. Essa sou eu, que além de tudo acabei ouvindo do simpático vizinho produtor a frase mágica "fique à vontade para pegar quando você quiser".

Com toda essa proximidade acabei aprendendo alguns truques que fazem toda a diferença na hora de escolher as flores, que chegam a durar 15 dias na sala de casa. Antes de mais nada é importante saber que elas são como frutas: nascem verdes, amadurecem e daí estragam, por isso têm o momento certo para serem (es)colhidas.

O segredo da durabilidade começa no produtor, que deve fazer certinho a sua parte e mandar para o mercado flores colhidas no ponto exato de maturação. Nada de verdes demais nem passando da hora, porque nos dois casos elas murcham em poucos dias mesmo em água nova. As primeiras porque, no vaso, não se sentem mais nas condições adequadas para continuar o ciclo, e as últimas porque, muito maduras, já estão no final da vida.

A floricultura também deve fazer a sua parte e disponibilizar apenas flores frescas, bem escolhidas e ainda com muitos dias de vaso pela frente. Neste caso, fazer amizade com os vendedores sempre ajuda, porque claro que toda loja tem suas manhas e segredos, e clientes amigos e simpáticos acabam levam o melhor da mercadoria.

Em todo caso, nada como conhecer alguns detalhes para escolher com segurança as flores que vão enfeitar sua casa. O miolo da gérbera diz tudo sobre ela, veja:

Mistique amadurecendo - média durabilidade

Mistique madura demais - pouquíssima durabilidade

Todas as cores de gérbera têm nome (existem mais de 60 variedades!), e Mistique é minha favorita, top das tops. Nela é bem fácil perceber a evolução do miolo, que vai "enchendo" conforme a flor amadurece.

O que acontece, na verdade, é que as flores propriamente ditas estão no miolo das gérberas. Aquilo que nós, leigos, chamamos de flor, é, no vocabulário botânico, um capítulo: conjunto de pequenas flores agrupadas e protegidas por brácteas (folhas modificadas). No caso das gérberas, as brácteas estão reunidas numa base circular e têm cor, forma e textura, então formam algo vistoso que chamamos erradamente de flor.

O mesmo acontece nas outras espécies da família Asteraceae, ou Composta, que é também a dos girassóis e das margaridas. Em todas elas o vistoso são as brácteas, e as flores são aquelas anteninhas do miolo que vão se abrindo conforme amadurecem. Por isso, quando o centro da gérbera está todo cheio sabe-se que ela só dura mais um ou dois dias, afinal, todas as flores se abriram, amadureceram e em seguida morrerão (em alguns casos dando origem a sementes).

Mais exemplos, para treinar e pegar prática:

Dino verde - bastante durabilidade

Dino média - boa durabilidade

Uma observação importante: variedades como a Dino (acima) e a Presley (abaixo) têm dois grupos de brácteas. Um bem grande, de brácteas mais longas e externas, e um mais denso, de brácteas curtinhas, que fica bem ao redor do miolo. Cuidado para não confundir essas brácteas menores com anteninhas se abrindo, senão sempre vai parecer que a gérbera está passando do ponto. Veja mais:

Presley verde - bastante durabilida

Presley um pouco mais madura - boa durabilidade

Presley ainda mais madura - alguma durabilidade

Em todos os casos, conforme a gérbera vai amadurecendo vê-se menos do miolo e mais das anteninhas (flores) expostas. É sempre igual.

Rosabela verde - bastante durabilidade

Rosabela amadurecendo - boa durabilidade

Rosabela bem madura - pouca durabilidade

Tem também a variedade Sunny que, diferente das anteriores, tem diversas camadas de brácteas de tamanhos diferentes. Apesar disso, ela segue o mesmo padrão de flores amadurecendo no miolo, dá só uma olhada:

Sunny verde: bastante durabilidade

Sunny amadurecendo: boa durabilidade

Sunny madura: pouca durabilidade

Depois de escolhidas as flores, na hora de montar o arranjo você deve cortar as pontinhas dos caules dentro da água, para que não entre ar nos "caninhos" de circulação da seiva. Faça isso novamente a cada três dias, para renovar as pontas, e troque a água do vaso diariamente. São essas as dicas dos produtores. Aquela história de aspirina, pílula anticoncepcional, água sanitária e mais um tanto de coisas estranhas na água para aumentar a durabilidade é besteira.
Vergeet het maar!, diriam os holandeses.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O primeiro Terra Madre Day a gente nunca esquece


Ontem foi o Terra Madre Day, dia marcado pelo Slow Food para celebrar a terra e o que ela nos da. Muitos eventos aconteceram simultaneamente em todo o mundo, e em São Paulo teve Dia de Campo Urbano - identificar e colher, cozinhar e comer, promovido pela Neide Rigo.

Um bando de 14 foragidos do trabalho saiu, em plena segunda-feira, para caminhar pela Lapa com a missão de identificar e colher espécies comestíveis que nascem pelas ruas do bairro. Guiados pela Neide e com um pouco de colaboração e experiência de cada um do grupo (com ênfase nos incríveis conhecimentos do Guilherme), enchemos nossas sacolinhas com folhas, frutos, bulbos, legumes e ervas medicinais e aprendemos muito, principalmente no que diz respeito às possibilidades de um paisagismo mais útil e caprichado em qualquer grande cidade. Se haverá plantio de árvores, por que não frutíferas? Como trepadeiras para fechar muros e grades, por que não maracujás?

Grumixama amarela (Eugenia brasiliensis)


Vassoura-relógio (Sida rhombifolia)

Devidamente uniformizados com nossos crachás adesivos do Terra Madre Day, conhecemos a face "roça" da metrópole, lugar onde nascem mangas, bananas, tamarindos, limões cravo, graviolas, inhames, batatas-doce e dezenas de outros alimentos, e onde crescem também muitas variedades de matos comestíveis e ervas medicinais que pisamos em cima sem nem desconfiar que existem. Na Europa, por exemplo, vende-se dente-de-leão (Taraxacum officinale) em feiras livres, enquanto aqui no Brasil ele nasce espontaneamente em cada fresta e rachadura de calçada por onde andamos. Colhemos um bom tanto deles, para a salada.

Dente-de-leão (Taraxacum officinale)

Pelo caminho também encontramos feijões, uma linda espécie de mini pepininhos silvestres...

Vagens de feijão de espécie não identificada

Mini pepinos comestíveis (Melothria pendula)

... e cúrcumas, plantadas pela Neide e algumas crianças em uma pequena praça mal cuidada mas arborizada com lichias e uvaias, onde, até hoje, certamente pouquíssima gente parou para reparar e experimentar. Pois ali cavamos e desenterramos lindos bulbos amarelo-ouro com cheiro de terra para colorir o almoço.


No final do passeio, bolsas e bolsos passeavam cheios de plantas, frutos e matinhos que virariam nossa refeição.

Fábio e sua muda de café "plantada" no bolso

Buquê de sementes de maria-gorda (Talinum paniculatum)

Tudo foi colocado sobre a mesa da casa da Neide e, junto com os ovos doados e as laranjas que levei de presente na semana passada (deste post aqui), fizemos um belo conjunto de alimentos coletados por nós. Nada de compras, muito menos de comidas processadas. Tudo fresco, natural e recém-colhido nas ruas da quinta maior cidade do mundo. Pura celebração à terra.


Com 28 mãos na massa, em pouco tempo tínhamos muito suco de laranja, de tamarindo e de manga verde (espetacular, batido com água e um pouco de açúcar) e alguns pratos em andamento.


Folhas de caruru enfeitaram de verde o risoto de arroz integral e feijões que já tinha sido pré-preparado pela Neide, bananas verdes viraram nhoque romano e também um delicioso purê inventado na hora por ela e decorado com as sementes de maria-gorda do Guilherme, e as mangas, igualmente verdes, foram transformadas em chutney cru, temperado com pimenta, cebola, cominho e sementes de coentro. Na salada verde nem uma única hortaliça convencional, mas uma coleção de matos comestíveis: serralha, caruru, dente-de-leão, mentruz, maria-gorda e tomatinhos-cereja, esses últimos também enquadrados na categoria "mato" porque nasceram por aí, sem terem sido plantados. E teve também molho pesto de buva (Conyza bonariensis), feito segundo a receita da versão tradicional, mas substituindo o manjericão pela erva espontânea. Foi invenção da Cenia Salles, líder do convívio Slow Food São Paulo, e ficou saboroso, um pouco picante, perfeito.


Às quatro da tarde, quando deixei a festa que ainda entrava na etapa da sobremesa, me despedi de 13 pessoas felizes, que com certeza se lembrarão para sempre do nosso primeiro Terra Madre Day. Que venham muitos mais, e que possamos nos juntar novamente para celebrar uma alimentação rica, bonita, saudável e repleta de histórias para contar.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Laranjas a preço de banana e, ainda assim, no lixo


Este ano ficará na memória dos produtores de laranja como o ano do prejuízo. Plantou-se demais, comprou-se de menos e quem viaja pelas estradas do país passa ao lado de pomares cheios de laranja apodrecendo no chão. Não vale a pena colher porque não há onde estocar tanta laranja para ninguém comprar. Com que dinheiro se pagará a mão de obra, o transporte, a estocagem? É mais barato (ou menos caro) deixar perder.

Produtores rurais muitas vezes se deparam com situações como essa, e só sobrevivem os que têm algum dinheiro guardado no bolso e a alma repleta de resiliência, afinal, como jogar fora toda uma safra, o investimento financeiro, o suor do próprio corpo e ainda ter forças para começar tudo de novo para o ano que vem? Transfira essa situação para o seu trabalho, seu dia a dia, e talvez você perceba que não aguentaria o baque.

Nos últimos meses alguns laranjais foram destruídos aqui na região, e ontem, pela cerca, fui testemunha do "basta" de um vizinho. Em meio dia uma retroescavadeira deu fim a parte de um pomar de laranjas para abrir espaço para mais uma aposta, um novo investimento. É duro assistir (e o próprio vizinho não quis presenciar) a máquina derrubando, em minutos, pés de laranja que levaram anos para crescer e, saudáveis, ainda dariam muito suco. Pois dezenas deles foram ao chão e muita laranja sobrou, caída na terra.




Depois da derrubada, tudo foi arrastado para o centro do terreno e colocou-se fogo no miolo da montanha de laranjeiras. Nem é preciso esperar a massa verde secar, o óleo essencial da laranja é inflamável e aos poucos já começa a queimar. Quanto mais rápido acabar, mais rápido se esquecerá. Melhor assim.



Recentemente, neste post, escrevi sobre coisas que se aprende quando passamos a conviver minimamente com algum tipo de produção agrícola, ainda que seja uma horta em vasos. É um mundo completamente diferente do mundo da produção industrial, por exemplo, onde praticamente tudo é previsível e controlável. É no campo, nas fazendas, na roça mesmo, onde cresce nosso melhor alimento. Aquele que não nasceu dentro de máquinas, não foi colorido artificialmente, aquele que não vem dentro de pacotes de alumínio. E o que se conhece dele? Quem se conhece dele? Quantos amigos ou ao menos conhecidos nossos são produtores rurais?

O que um dia para mim foi apenas uma desconfiança, hoje é uma certeza: ambientes (e pessoas) rurais e metropolitanas são praticamente desconhecidos um do outro. Apesar de tão interligados e dependentes entre si. Incrível seria se todo mundo tivesse a oportunidade de conhecer o outro lado, de viver, ao menos por uns dias, as felicidades e dificuldades do outro. Talvez conseguiríamos resolver mais facilmente problemas que existem apenas por desconhecimento da realidade de ambas as partes. Talvez menos comida iria parar no lixo. Talvez todos daríamos mais valor ao trabalho uns dos outros. Talvez, neste ano, tantos laranjais não seriam sacrificados.

Quer ajudar? Participe mais. Mostre, comente, ensine, estude, visite, converse a respeito. E vá já comprar laranjas, que justamente nessa época de calor amadurecem, ficam mais docinhas do que nunca e agora estão a preço de banana.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Couve em vaso

Couve rendada, uma delícia refogadinha com alho

Hoje o dia está corrido e para o almoço, pronto na geladeira, eu só tinha arroz e feijão. Sem problemas, adoro e como todos os dias com gosto, mas faltavam coisinhas pra dar uma incrementada. Nessa hora, ter uma horta em casa faz toda a diferença. Desde o começo das minhas plantações, nunca tive a pretenção de comer só o que produzo. Uma horta grande e variada que possa prover uma casa de vegetais em quantidade suficiente para dispensar a compra de horti fruti dá bastante trabalho e exige mais tempo e dedicação do que tenho disponíveis atualmente. Por isso, desde o começo, alterno culturas pensando no que gosto de ter como acompanhamento e no que é prático para complementar uma refeição, fazer um molho de macarrão, coisas assim.

Mas o que tenho colhido tem sido suficiente para comer bem variado e, muitas vezes, ainda sobra para presentear vizinhos e amigos. É o caso dos pés de couve. Quando me mudei para o sítio ganhei da D. Leonia seis mudinhas de uma linda variedade de couve toda recortada que batizei de couve rendada, mas quando ainda morava em São Paulo já tinha feito experiências super bem sucedidas com couve comum em vaso. Ambas são plantas fáceis de cultivar mas exigem alguma paciência e dedicação no quesito combate a pulgões.

Na verdade toda a família das couves - couve manteiga, couve-flor, brócolis, repolho - tem esse inconveniente. Vira e mexe as folhas são atacadas por pulgões, que sugam a seiva da planta e vão minando sua energia até a morte. São bichinhos brancos, cinzas ou pretos que aparecem na face inferior da folha, todos juntinhos, trabalhando em grupo. Esse ataque pode acontecer em qualquer época do ano, mas é mais frequente durante o calor intenso e quando faltam regas suficientes. Para combatê-los, o velho e bom óleo de neem resolve. Veja o post sobre pragas nas plantas.

Uma opção de prevenção ou mesmo de combate, quando a situação ainda não é grave, é esguichar as folhas por baixo com um jato forte de água, assim os pulgões se desprendem. Retirar do pé as folhas velhas, que não serão mais usadas porque estão feias, também ajuda a manter a couve livre de pragas, porque faz com que a planta fique bem arejada, sem folhas emboladas, que são o ambiente perfeito para pulgões se esconderem.

No mais, o cultivo é fácil, sem surpresas, e a colheita é recompensadora. Hoje tenho cinco pés de couve rendada e colho cerca de 15 folhas a cada duas semanas. Quando tinha só uma, em vaso, colhia 3 ou 4 folhas a cada duas semanas, que são o suficiente para duas pessoas. E o pé dura muitos meses, acho que mais de ano. Você já começa a colher folhas quando ele ainda é baixinho, com 30 cm de altura, e com o passar do tempo ele vai ficando alto, chega a mais de 1,5 metro.

Se quiser experimentar ter uma couve no vaso, plante em um que tenha, no mínimo, 40 cm de altura. Capriche na escolha da terra, bem fértil, adubada, para garantir uma couve saudável e bem bonita. E coloque-o num lugar onde bata pelo menos 4 horas de sol todos os dias. As regas devem ser frequentes para manter a terra sempre úmida. Se secar, sua couve vai murchar rapidamente.

É possível encontrar mudinhas prontas para o plantio no vaso em boas lojas de jardinagem. Ou então faça as suas a partir de sementes, seguindo o passo a passo do post como fazer uma sementeira.

Antiga couve comum, cultivada em vaso no quintal de São Paulo

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Botando o dever de casa em dia

Capuchinha, flor comestível e bastante visitada por abelhas

Uma semana praticamente fora da web, botando meu dever de casa em dia.

No início da semana passada, em São Paulo, fui à pré-estreia do filme Muito além do peso, de que falei aqui. Para começar já foi gostoso ver uma meninada super empolgada com o buffet lindo que recebia a plateia de adultos e crianças logo na entrada do auditório. Todas as comidinhas e petiscos eram vegetais, a grande maioria deles in natura. Tinha cestinha de amora, framboesa, maçã verde, pêssego, palitinhos de cenoura e pepino e alguns tipos de batata cortadas em fatias fininhas, tipo chips, assadas. Para beber, sucos naturais e águas aromatizadas com hortelã e limão, pétalas de rosas e capim santo. Tudo delicioso e muito charmoso.


Depois das comidinhas, o filme. Muito bom, obrigatório e esclarecedor para quem come e bebe tudo e qualquer coisa que passe por dentro de uma indústria de alimentos e porte uma embalagem que não seja sua própria casca natural. São assustadores as quantidade de óleo e açúcar acrescentados nas comidas processadas, e médicos entrevistados explicam que são esses os ingredientes que criam dependência e fazem a gente não conseguir largar refrigerantes e salgadinhos antes do fim do pacote. Além disso, células gustativas educadas à base de óleos e açúcares nunca serão muito receptivas a vegetais. Isso explica porque muitos adultos, apesar de conhecerem a importância de uma alimentação saudável, têm tanta dificuldade para se habituar com legumes e hortaliças.

Impressiona ver crianças se jogando no chão aos berros até ganharem dos pais um saco de batatas fritas, e uma mãe de duas ou três filhas dizendo à entrevistadora que não se lembra se houve o preparo de alguma refeição naquela casa ao longo da última semana. Detalhe importante: essa cena acontece diante de uma mesa coberta com o que foi tirado de dentro da dispensa da família. Tudo processado, empacotado e cheio de flavorizantes, conservantes e corantes. Nem um único vegetal. E a mãe completa dizendo que se preocupa que as meninas estejam bem nutridas, por isso procura comprar produtos vitaminados. É surreal.

Surreal também é ver uma menina de 12 anos, acima do peso, contar que há dois anos teve uma crise de pressão alta e trombose, que causou nela a paralisia das pernas. Depois da internação de emergência e do tratamento inicial, a orientação dos medicos foi mudança de hábitos alimentares e perda de peso urgente, para evitar que a crise voltasse a acontecer. E quando a entrevistadora pergunta quantos quilos a menina emagreceu desde então, a resposta é "nenhum".

De volta aos meus hábitos alimentares, fui à Agroplus (de onde falei aqui) comprar mudinhas para a horta. Talvez pela época propícia ao plantio de muitas das famílias de hortaliças, encontrei ainda mais variedade do que na última vez em que estive lá, e tive medo de chegar de volta e não ter onde plantar tudo o que trouxe.


O radiche coube nos canteiros junto com as mudas de quiabo, pimenta cambuci, acelga e brócolis, entre outras coisinhas, mas a abóbora foi para um cantinho do gramado, bem rente à cerca viva. Assim terá espaço para espalhar suas ramas e formar um maciço, uma ilhota baixa no meio das árvores. Experimentei plantar assim no ano passado e deu super certo. Foi só tirar um disco de grama do lugar escolhido e caprichar na cova, cavando um buraco de mais ou menos o volume de um balde desses médios, domésticos, e preenchê-lo com uma terra boa, bem fértil. Ali as raízes principais da planta se alimentam, e as ramas crescem por cima da grama mesmo, lançando suas raízes "acessórias" nos espacinhos vagos que vão encontrando no caminho. Como o pé de abóbora tem o ciclo de vida curto, dentro de 5 ou 6 meses para de produzir e morre sozinho, daí é só recolher toda a folhagem morta e começar tudo de novo. Ou não. A grama pode estar meio feia onde estava o "abobral", mas certamente não terá morrido. Uma boa roçada seguida de regas abundantes (grama gosta bastante de água) faz tudo voltar a ser como era antes. No ano passado tive visita que achou lindo e disse que ia copiar em casa. Pronto, pé de abóbora virou planta ornamental.

No feriado emendado de quinta e sexta-feira (que não acabou até hoje, terça, em algumas cidades do país) trabalhei - e como trabalhei - na horta. Planto minhas comidinhas em canteiros que um dia serviram de estufa de marantas mas estavam abandonados há alguns anos, tomados de mato, e quem já plantou onde antes era mato conhece bem as dificuldades que estou passando. Com anos e anos de abandono a terra se enche de sementes de diversas espécies de mato e assim que você arranca o que está crescido, a luminosidade combinada com a água faz com que novas sementes germinem. Você arranca o novo mato e novas sementes germinam. E de novo, e de novo, um sem fim de vezes. Muitos dos "matos" que nascem nos meus canteiros na verdade são plantas úteis para chás, saladas ou refogados. Quando recebi visita da Neide, do Come-se, a cada pouco caminhado ouvia dela "você conhece isso?, é de comer". Muitas das espécies conhecia, sim, como dente-de-leão, beldroega, serralha, maria-preta, mas outras não tinha a menor ideia do que seriam.

De qualquer maneira as tenho classificado como "mato" porque estão nascendo onde quero ter couves, rúcula, tomate, cenoura, alfaces, ervas diversas, etc, e como normalmente essas invasoras se desenvolvem mais rápido do que o que quero cultivar, se não arrancá-las perco o que plantei. Só que essa batalha ELAS versus AS MINHAS só será vencida pelas MINHAS seu eu arrancar ELAS sistematicamente, até que acabe o banco de sementes e eu consiga ter um pouco mais de sossego. Enfim, passei horas a fio debruçada arrancando o que não quero ter dentro da horta no momento.

Nesse canteiro, por exemplo, só eu sabia que cresciam tomateiros.


Mas arranquei o que estava atrapalhando e deixei só o que interessa (da pra ver o pequeno tomateiro bem ali, no centro da foto?).


A mataiada ficou por lá mesmo, estendida sobre a terra com a função de cobertura vegetal, também conhecida como mulching. Uma vez falei sobre isso, aqui. Desde que o que foi arrancado não esteja com sementes, é ótimo deixar tudo ali mesmo, primeiro secando e depois se decompondo, para enriquecer a terra com nutrientes, além de evitar que a umidade evapore. Toda terra coberta, por qualquer coisa que seja, é sempre mais rica e fértil do que aquela permanentemente exposta, que perde sua vida e sua fertilidade dia após dia pela ação do sol e do vento. Basta levantar um vaso, um jornal ou mesmo um pedaço de plástico velho que tenha ficado sobre um canteiro para ver ali um tanto de minhocas, centopeias e tatus-bola, todos seres que vivem em locais úmidos e com boa disponibilidade de matéria orgância. Eles e milhares de outros seres microscópicos são o sinal de terra boa, viva, pronta para receber plantas.

E como recompensa, depois de tanto trabalhar a terra, chega a hora de comer a produção. Recentemente andei colhendo cenouras e abobrinhas italianas, e nesses dias de feriado foi a vez das folhas. Preparei lindas saladas coloridas, com o verde das rúculas e o roxo das folhas de amaranto, que complementaram o vermelho fresquinho dos tomates. É sempre muito mais gostoso comer o que a gente mesmo plantou.