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sexta-feira, 19 de novembro de 2021


No primeiro dia de caixa nova e fechada no Laboratório, monitorando as meninas pelo plástico transparente, percebi um forídeo aparecer lá dentro e consegui matá-lo, espremendo o bicho entre o plástico e uma travessa de madeira. Algumas horas depois vi mais um, que voou para o fundo e escapou de mim. No dia seguinte outros quatro apareceram. Consegui fazer com que alguns voassem para fora da caixa, outros consegui matar, mas aquilo começou a me preocupar. Como eles apareciam cada vez mais ali dentro se nenhum conseguia entrar?

Então, no terceiro dia, depois de matar o nono desgramento, tomei a decisão de abrir a caixa novamente dentro do banheiro lacrado para ter acesso ao fundo de tudo, que não era possível ver olhando de cima, pelo plástico.

O que encontrei baixou um pouco meu astral: dezenas de abelhas mortas, muito lixo acumulado e larvas, diversas larvas andando pela madeira, se enroscando em pedaços de cera e subindo pelas paredes. Sem falar de alguns casulos (as pupas, onde acontece a transformação de larva para ser voador) e forídeos adultos voando ali pelo meio. Desanimador. Descobri que não tinha conseguido limpar tudo na transferência, talvez tivessem sobrado ovos e larvas escondidos entre as camadas do ninho, onde não mexi muito para não estragar. A infestação continuava em andamento e a colônia ainda precisava da minha ajuda intensiva.

Virei o módulo inferior da caixa de cabeça para baixo, jogando fora todo aquele lixo e raspei a madeira com uma colherinha, catando todas as larvas que pude ver. Fiz realmente uma boa busca, e posso dizer que naquele módulo de madeira não sobrou nenhuma.

Enquanto isso as abelhas, agora sim estressadas, voavam por todo o banheiro, fazendo um zum zum zum forte que não tinha acontecido ainda. Segurei firme minhas próprias rédeas, me forçando a ficar calma e domando uma irritação que teimava em vir, porque eu era a única ali que podia fazer alguma coisa. Estava sozinha, eu com meus instintos e ferramentas, e tinha que encerrar aquilo da melhor maneira possível. Para elas.

Nessas horas, pensar em que já passou por perrengue maior que o seu dá uma certa força e a sensação de que a coisa até que não está tão ruim. Um médico, exausto durante uma cirurgia complicada, deve se sentir muito pior, pensei. Tamara Klink, dentro de uma tempestade, certamente passou mais dificuldades. E no meio do oceano a abelha morta seria ela mesma, caso a calma não a ajudasse a pensar.

Então remontei as metades de cima e de baixo da caixa, recoloquei as vedações de fita crepe e comecei a pegar as abelha, uma a uma nas pontas dos dedos, dessa vez contando. Mais uma vez o trabalho parecia infinito, mas por volta da número cinquenta e poucos fui enxergando o final daquilo. Terminei mesmo na sessenta e dois, e pelo silêncio dentro do banheiro tive certeza de que tinha pego todas de volta.

Passei mais três dias com elas fechadas na caixa, só observando pelo plástico, e fiz a mesma limpeza uma vez por dia, abrindo tudo, deixando todas voarem pelo Laboratório, recolhendo todo mundo de volta e notando que a cada dia tudo parecia melhor e mais fácil. Menos abelhas mortas, menos larvas vivas, nenhum forídeo voando, e então chegamos ao quinto dia desde a transferência, tempo limite para mantê-las presas sem ir a campo.

Pedi "asilo" no sítio de uma amiga, bem perto do meu, para que elas recomeçassem a vida num novo ambiente, sem a presença de saqueadores que ainda procuravam por elas aqui nas minhas instalações. Fiz a abertura da caixa numa manhã gostosa de sol morno, ainda bem baixo, desenhando sombras longas ao pé das árvores, e fiquei junto, porque há mais de dez dias nossas vidas estavam assim, correndo lado a lado.

Nos primeiro minutos não saiu ninguém, e tive a impressão de que elas tinham até se esquecido de como era sair de casa pela porta principal, de onde se voava para frente e não para cima, de onde se vê o verde da grama e da copa das árvores, ao invés do teto e da lâmpada de um banheiro. Mas então veio uma, que chegou na beiradinha do furo e parou, titubeante. E depois veio outra, que parou ao lado dela, pensando junto. E então as duas saíram ao mesmo tempo, puxando um cordão de outras abelhas como um colar de contas, espaçadas por intervalos de pensar e observar antes de alçar voo livre outra vez. Foi bonito demais!

Meu trabalho ainda não acabou. Faço visitas diárias para observar se estão agindo normalmente, voltando do campo com pólen e resina nas perninhas, construindo as estruturas de batume do interior da caixa e formando novos depósitos de mel. Levo meus apetrechos para o sítio onde estão e passo horas trabalhando ao lado delas, acompanhando os progressos e vigiando visitas suspeitas. Forídeos estão por aí, em todos os lugares, à espreita de uma colônia fraca que não consiga se defender. Têm faro apurado e são capazes de perceber de longe o odor de um pouco de pólen fermentado, mal cuidado, pedindo para ser atacado.

Uns e outros já se aproximaram e tentaram invadir a caixa, mas descobri a tempo e consegui espantá-los, antes que se instalassem e começassem a botar ovos. Em alguns momentos me pego chateada, achando que vai começar tudo de novo e não vou conseguir fortalecer esse enxame. Em outros momentos sinto segurança de que estou fazendo o melhor possível e que é assim mesmo, difícil mas possível. É isso o que Cristiano já me disse várias vezes.

A esperança vai e vem, ao sabor dos voos, para cima e para baixo.

Resta seguir em frente, sem sofrer por antecipação e sem desistir. Sou como elas, mais uma abelha operária, a atual responsável pela segurança e saúde do enxame, e assim como todas as outras tenho que sair de casa de manhã pela portinha da frente, e mergulhar num voo livre e firme, com energia e segurança do que tem que ser feito.








domingo, 14 de novembro de 2021

A torre central da colônia de abelhas, o famoso "ninho", formado por discos de células hexagonais onde a abelha-rainha bota um ovo e dele nasce uma abelha.


Como sempre, na linha de largada de qualquer desafio é importante combinar com você mesmo o que deve ser feito. Repassei o plano de ação na cabeça, abri a tampa da caixa, tomei coragem e comecei, retirando o barro das beiradas para abrir acesso ao ninho, uma torre central. Me surpreendi com abelhas mais calmas do que imaginei, que mais andavam sobre o que eu mexia do que voavam querendo fugir. Fui trabalhando com calma e cuidado, seguindo meus instintos para fazer a coisa da melhor maneira possível. O mais importante de tudo é transferir os discos de cria, um em cima do outro, desmontando essa estrutura o menos possível. Além disso, a rainha, que fica andando por esse "andares" da maternidade, não pode ser machucada nem perdida. De jeito nenhum ela pode ficar para trás, esquecida na caixa antiga. Mas ela normalmente ajuda, porque corre para o centro do ninho, para se esconder, então a transferência cuidadosa de toda a torre central da colônia leva ela junto, sem maiores estragos. Outra facilidade é que muitas das abelhas jovens, que ainda nem voam, ficam sempre pertinho da rainha, então vão todas em bloco, nessa transferência.

Depois de ajeitar a "sede" dessa linda organização nas suas novas instalações, topei com o núcleo da bagunça: centenas de larvinhas brancas andavam pelo fundo da caixa antiga, em meio a uma gosma de mel escorrido e pólen fermentado. Em poucos dias, tudo dentro da colônia teria sido destruído por essa onda de saqueadores que vinha avançando, silenciosamente, de baixo para cima da caixa.

Continuei com os trabalhos de mudança, descartando as sujeiras e salvando materiais limpos e sadios, enquanto abelhas jovens andavam por toda a bancada, meio sem rumo, e abelhas adultas voavam pelo banheiro, pousando no teto e nas paredes. Eu já devia estar ali há mais de meia hora, trancada naquele cubículo de pouco mais de um metro quadrado, cada vez mais quente e abafado.

Foi fácil capturar quem só andava, mas foi quase infinito o trabalho de pegar, uma a uma, as que voavam fugindo de mim. No início usei a velha técnica do copo com a lâmina de plástico, encaçapando a abelha na parede e pegando ela ali, presa, que é muito mais fácil. Mas logo virei gente grande e passei a praticar a captura em voo, segurando quem voava no entorno da lâmpada e bem rentinho ao teto. Como podem ser rápidas as pinças naturais que temos nas mãos! Virei uma máquina de pegar, colocar na caixa e tampar, pegar, colocar na caixa e tampar, pegar, colocar na caixa e tampar. Dezenas, talvez uma centena de vezes. E se acontece de uma sair quando você coloca outra pra dentro? Lógico!

Uma hora depois telefonei para Sr. Miyagi, ainda ali fechada no Laboratório quente, pra contar que tinha acabado de realizar minha missão e que estava feliz por ter feito tudo sozinha. Eram boas as notícias e, agora sim, parecia que a coisa ia funcionar. Ouvi dele os parabéns, mas que ainda havia muito o que fazer: nos próximos três ou quatro dias a colônia deveria continuar bem fechada, trabalhando para reconstruir à sua maneira as instalações da nova morada, enquanto eu colocaria néctar e pólen para alimentá-la. Tudo muito aos poucos, sem exagero, para que nada fermentasse e não corrêssemos o risco de gerar um novo odor atrativo para forídeos. Trabalho de formiguinha. Ou melhor...


A meleca de mel e larvas no fundo da caixa, que fermentava e atraía cada vez mais 
forídeos pra dentro da caixa de criação



O ninho visto de cima, já com o módulo superior da caixa colocado



O plástico que cobre tudo, logo abaixo da tampa de madeira,
por onde a gente pode olhar sem que nenhuma abelha escape.
E o ninho coberto com uma lâmina de cera alveolada, pra garantir conforto térmico e
facilitar o trabalho das abelhas, que teriam que começar toda essa
proteção do zero, se eu não tivesse dado uma mãozinha.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021


A grande questão da invasão de forídeos passou a ser descobrir se eles já haviam se instalado na colmeia ou se todas aquelas sessões de sopro tinham conseguido evitar isso. A estratégia, então, foi fechar as abelhas dentro da caixa no final do dia, quando todas voltaram do campo para passar a noite em casa, levá-las para morar no banheiro, longe da "fonte" de forídeos da mata, e continuar soprando por mais um tempo. Assim, sem que mais nenhum invasor pudesse entrar, seria possível descobrir se eles já nasciam lá dentro.

E infelizmente essa foi nossa conclusão, depois de dois dias de mais invasores do que abelhas dentro da caixa. Eles não paravam de aparecer, eu não parava de matá-los com a raquete, e o banheiro já tinha bichos mortos por todo o chão, além de alguns espremidos nas paredes. Minha rotina já tinha virado de cabeça para baixo, tarefas de trabalho atrasadas começaram a se acumular, as abelhas certamente estavam estressadas, e o pior: agora era certo que o enxame estava realmente em risco. A cada hora que passava mais larvas nasciam, mais alimento das abelhas era comido e a rainha certamente iria perceber essa bagunça e parar de fazer a postura de ovos, o que decretaria o fim da colônia se não fosse revertido a tempo. Porque quando não nascem mais trabalhadores a população vai diminuindo conforme os mais velhos vão morrendo, e o fim se aproxima.

- Então agora você não pode demorar, Juliana. Quanto mais o tempo passa, pior fica, me disse o Cristiano. Você vai ter que fazer a transferência da colônia para uma caixa nova, levando toda a estrutura do ninho das abelhas o mais intacta possível, além de pedaços de cera e batume da caixa antiga para que elas possam construir as estruturas internas das novas instalações. E faça a inspeção de tudo com atenção, para não levar junto ovos, larvas nem forídeos adultos.

Chama desafio, isso, e de vez em quando eu gosto de encarar um deles!
Em poucas horas montei uma bancada cirúrgica em cima do vaso sanitário do banheiro, que naquele momento ganhou o nome de Laboratório, com L maiúsculo. Juntei apetrechos que eu já tinha e mais alguns que imaginei poder precisar:

- uma colher de sopa e uma espátula de pintura dobradas em 90 graus, para suspender o ninho apoiando por baixo
- formão, alicate e chave de fenda para soltar o batume duro das paredes da caixa
- lâminas de cera para ajudar nas novas construções
- potes vazios para guardar mel e pedaços de cera
- rolos de fita crepe larga e estreita
- papel higiênico
- canudinho de soprar forídeos
- copo transparente e lâmina de plástico rígido para pegar abelhas pousadas nas paredes
- uma nova caixa de madeira para a colônia, que por sorte eu já tinha
- um banquinho e um copo d'água para mim, porque não sabia por quanto tempo ficaria trancada no meu novo Laboratório

Avisei marido e o pessoal do sítio que ficaria ali fechada por um tempo, sem poder abrir a porta, mas que eles poderiam falar comigo se precisassem de alguma coisa. E que se eu começasse a demorar demais para sair, eu ficaria feliz se eles me perguntassem se eu estava viva, respirando, hidratada, precisando de comida ou de alguma ajuda.

Revisei minhas ferramentas, fechei a porta do Laboratório, olhei a caixa onde estavam as abelhas, a caixa nova para onde elas iriam e respirei fundo. Naquele momento lembrei da Tamara Klink, de 24 anos, que há poucos dias tinha chegado ao Recife depois de cruzar em solitário o oceano Atlântico, "trancada" num barco de 8 metros de comprimento.
Isso aqui vai ser bico, pensei.

Continua amanhã, no próximo post.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021


Estou há dias lidando com a invasão de forídeos numa colônia de abelhas Mandaçaia. É minha primeira vez convivendo com um problema tão sério, que em poucas semanas pode acabar com a vida de centenas de abelhas, e não imaginei que tomaria tanto do meu tempo e da minha preocupação.

Forídeos são pequenas moscas, parecidas com as mosquinhas das frutas, que invadem enxames  enfraquecidos de abelhas sem ferrão e se aproveitam da sua estrutura para se alimentar e se reproduzir. Os estoque de pólen feitos pelas abelhas para alimentar suas crias são saqueados pelos forídeos adultos, que neles colocam seus ovos. Pequenas larvas nascem alguns dias depois em meio a todo aquele alimento e se fartam comendo feito loucas, crescendo o mais rápido possível para tomar conta de tudo, tentando ser mais eficientes do que as abelhas em sua capacidade de se defender.

Mais ou menos o mesmo acontece com nosso organismo quando é atacado por um vírus da gripe. Começa uma guerra por sobrevivência, e quem for mais rápido, mais forte e tiver a melhor estratégia é quem acaba vencendo, se estabelecendo e assistindo o fim trágico do outro. Não há espaço para os dois.

Assim como a gente procura um médico quando se sente realmente mal, pedi ajuda ao Cristiano Menezes, entomólogo especializado em abelhas sem ferrão, com quem tenho ensaiado parcerias e projetos para o ano que vem na nossa escola de educação ambiental, a Escola Orgânica.

Cristiano tem tido uma paciência de monge budista, respondendo minhas dúvidas em áudios longos e detalhados. Desde o primeiro dia em que notei a presença de diversas mosquinhas tentando entrar na caixa e poucas abelhas na entrada para evitar a invasão, mando mensagens descrevendo o que vejo e ele responde dizendo o que devo fazer para evitar o avanço da tragédia. São diversas possibilidades, diversas opções de tratamento, há que se analisar com calma.

Certamente as avaliações e diagnósticos teriam sido muito mais rápidos e eficientes se ele tivesse vindo aqui tomar as providências pessoalmente enquanto eu só assistia, mas a agenda apertada dele me colocou pra observar, trabalhar sozinha e adquirir uma experiência que eu ainda não tinha. É assim com tudo na vida, não? Saber a teoria nos da uma falsa confiança que rapidamente é desbancada quando se põe a mão na massa.

No momento me sinto numa versão ecológica do filme Karatê Kid - A hora da verdade, quando Sr. Miyagi coloca Daniel San para envernizar centenas de metros da sua cerca de madeira, desenvolvendo um movimento específico das mãos que é fundamental para a prática da arte marcial.

Aqui no meu remake estou há três dias repetindo o mesmo ritual: tiro a caixa das abelhas de baixo das árvores, levo pra dentro do banheiro da escola e abro a tampa de cima, para soprar lá dentro com um canudinho flexível de plástico. O objetivo é espantar os forídeos de lá antes que eles se estabeleçam e comecem a colocar ovos. Não vejo muito do que está acontecendo dentro da caixa, que é toda cheia de cavernas de barro construídas pelas abelhas, mas vou enfiando o canudo pelos buraquinhos e soprando o máximo que consigo, durante minutos a fio. Quando já não sai mais nenhum fecho a caixa e, de raquete elétrica em punho, vou matando todos os morféticos  que ficam voando pelo teto do banheiro. Para quem gosta daqueles estalos de mosquitos eletrocutados, é a atividade perfeita!

Depois de matar todos muito bem matadinhos, volto a caixa para debaixo das árvores, para as abelhas seguirem com seu trabalho no campo. E algumas horas depois lá vou eu de novo, levar a caixa pro banheiro, soprar o canudinho, dar espetáculo de raquete elétrica... Isso tudo acontece quatro, cinco, seis vezes por dia, porque novos forídeos do ambiente entram na caixa, atraídos pelos feromônios dos que já estiveram lá dentro e pelo cheiro de pólen que sai dos depósitos invadidos.

A conferir, nos próximos dias, o resultado dessa batalha.



 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

 



A primavera desta vez chegou adiantada, ainda nas últimas semanas de inverno, nas asas de passarinhos tão apressados que pareciam até atrasados.

Sabiás, sanhaços-azuis, bem-te-vis e beija-flores rapidamente construíram ninhos nas copas densas das árvores, nas moitas espinhosas do jardim e em cantinhos protegidos da nossa casa.

Enquanto a Sabiá-do-campo coletava barro pra sua cuia de raízes e ramos no vitrô do banheiro, a beija-flor ajeitava paina, matinhos e musgos no caule de uma folha de samambaia na varanda, formando a cestinha mais delicada, confortável e pequenininha que se pode imaginar.

De dentro da casa, observando as engenheiras pelas frestas e vidros, tentamos atrapalhar o mínimo possível, tomando banho de vitrô fechado e regando menos as plantas da varanda. Resultado: um banheiro super úmido, as plantas sofrendo por falta de água e nossa porta principal interditada.

Depois de alguns dias de adaptação a sabiá se acostumou com a lâmpada que às vezes acendemos à noite - afinal não é legal fazer xixi nem escovar os dentes no escuro - e a beija-flor entende que de vez em quando preciso ligar a mangueira e jogar água na varanda. Quando me aproximo, ela voa rapidinho para a árvore logo em frente e de lá me observa, com um misto de confiança e receio, enquanto eu não resisto e dou umas espiadas discretas dentro do ninho. Se começo a me demorar demais, ouço seu tic tic tic impaciente me pedindo que acabe logo e libere o lugar, porque ela precisa voltar ao seu trabalho de chocar.

Com muito cuidado e sem tocar em nada andei fazendo umas fotos, e agora conto os dias para o nascimento das crianças. Que pena que não vou poder segurar nenhuma no colo!

sexta-feira, 3 de abril de 2020


Naquele domingo, por uma ou duas horinhas que a chuva deu uma trégua, soltei as galinhas para que passeassem um pouco pela grama do jardim, aproveitando um solzinho que passava apertado entre as nuvens. Solto sempre que posso, porque é o ponto alto do dia delas, e toda vez que abro a porta do galinheiro elas correm pra fora animadas, dando saltos, voando baixinho e cantando de felicidade.

No final daquele dia voltou a chover, eu continuei minhas coisas dentro de casa e só quando já estava na cama percebi que não tinha fechado a porta do galinheiro. Certamente as galinhas já estariam todas acomodadas dormindo - elas sabem voltar para a "cama", assim como todos nós - mas é importante fechar a porta para protegê-las de gambás e teiús, dois animais silvestres de hábitos noturnos que ainda temos na região e são loucos por ovos de qualquer tipo.

Caminhei até o galinheiro debaixo de uma chuva fina, e antes de entrar encontrei uma bolota cinza ensopada, bem escostadinho no degrau de entrada. Era Pípalo, nosso galinho tamanho P, que não conseguiu entrar e se acocorou onde pôde, meio abrigado sob a porta aberta, todo molhado e encolhidinho de frio.

Peguei-o no colo, senti seu corpinho encharcado e escolhi um lugar para acomodá-lo no poleiro, entre as galinhas de tamanho maior, para que aproveitasse o calorzinho delas. Voltei para o quarto com o coração apertado, pensando que ele já está vivendo os problemas da idade avançada e preocupada em como um galo velhinho acordaria no dia seguinte, depois de dormir algumas horas na chuva e passar o resto da noite todo molhado.

Para minha sorte, meu coração mole encontrou outro coração mole como companheiro, e depois de conversarmos sobre Pípalo passar a noite molhado concluímos que esse é o tipo de situação que gera arrependimento no dia seguinte. Se ele morresse, nós nos sentiríamos culpados.

Toca levantar, botar sapatos, ligar as lanternas e partir para o resgate de nosso galinho P, que tremia de frio mesmo amparado por penosas bem maiores que ele. E o relógio da parede marcou 11 da noite do nosso domingo "tranquilo" de quarentena quando nos sentamos no escritório para secar um galo com secador de cabelos.


Com uma manta velha no colo, Flop deu show de carinho secando Pípalo em pontos-chave, como debaixo das asas, nuca e cabeça. Conforme o topete molhado e despencado voltava a ficar arrepiado, o galinho ganhava um pouco mais de dignidade e fazia pequenos movimentos, se recompondo.

Ficamos ali uns bons trinta minutos, até termos certeza de que todas as penas estavam praticamente secas e de que ele conseguiria passar a noite com um pouco de conforto. Montamos um ninho com panos de cachorro e improvisamos um cobertor com um trapo limpinho, algo leve de que ele poderia se livrar se estranhasse muito.


Dormimos com a sensação de ter feito com capricho a nossa parte, e no dia seguinte tínhamos um galinho recomposto. Não estava 100%, era verdade, afinal, cada dia (e cada noite fria) que passa pesa um pouco mais na conta de quem já está velhinho. Mas que diferença fizeram o calor de um colo, de um secador de cabelo e de uns panos de cachorro na vida de um galo!

quinta-feira, 2 de abril de 2020


A primeira coisa em que pensei quando acordei foi que aquele seria nosso primeiro dia realmente em isolamento. Era o segundo domingo de quarentena e estava chovendo lá fora. Não daria pra trabalhar na horta, pintar as paredes da obra recém acabada, cortar a grama nem reformar os vasos da varanda, coisas que temos feito em época de isolamento social.

Só que em sítio, ao contrário do que muita gente pensa, a vida não é tão tranquila quanto parece. Principalmente quando você tem - e faz questão de manter - muitas vidas dentro dele.
Ainda não tinha terminado a manhã quando o funcionário que mora aqui conosco veio avisar que tinha um tatu nadando dentro do lago, sem conseguir sair.

Nosso lago na verdade é um tanque artificial, um reservatório de água da chuva. Um grande e fundo retângulo cavado na terra e forrado com plástico. Duas camadas de tela grossa (imagine um mosquiteiro reforçado) protegem o plástico de furos feitos pelos cachorros, que sempre entram pra nadar. E de tatus também, que eventualmente vão parar lá dentro.

Flop tem um sentimento especial por tatus. Ele diz que são bichos amistosos e ingênuos, sem maldade, e que não fazem mal a ninguém. Já aconteceu de um deles acompanhá-lo, lado a lado, numa caminhada aqui pelo sítio, em direção à matinha que protege nosso brejo. E foi por esse sentimento de amizade que, assim que soube da notícia, ele deu um pulo do sofá e foi logo vestir a sunga.

Já temos alguma prática com o protocolo: quando o nível da água está baixo e não da pra fazer o resgate pelas bordas, é preciso entrar no lago, pegar o tatu, colocá-lo numa caixa, içar a caixa pra então transportar o bicho e soltá-lo num lugar melhor. Desta vez ainda houve um detalhe a mais: o tatu, com suas super unhas de cavar, furou a primeira tela e entrou por baixo dela, ficando ainda mais preso. Mas com calma e experiência nosso Tarzan particular deu conta do resgate (com o apoio de sua Jane, que trabalhou na retaguarda!), e em poucos minutos o tatu descansava aliviado, todo molhado, dentro de um engradado. Um pouco mais tarde foi solto na matinha do brejo, nossa área isolada e protegida, que recebe os animais silvestres que aparecem aqui em volta de casa.

Ótimo. Tudo tranquilo e calmo, todos vivos e salvos, e então pudemos voltar ao nosso domingo de quarentena.
Só que, sempre que levanto essa "lebre" do sossego, a vida me responde levantando de volta uma plaquinha que diz "Tsic, tsic, tsic. Tem mais. Você está sendo requisitada para..." E então no fim do dia, bem na hora de dormir, já na cama, me lembrei que não havia fechado a porta do galinheiro, para a segurança das galinhas durante a noite.

Toca levantar, ligar a lanterna, sair de pijama mesmo e caminhar sob as estrelas com as três cadelas acompanhando, pra encontrar, bem na entrada do galinheiro...
Amanhã eu conto! :)




sexta-feira, 26 de setembro de 2014

As vacas e as banheiras


Aqui bem perto do sítio tem um lugar por onde passo quando vou buscar retalhos de ferro de construção na d. Neila. É uma estradinha de terra que sai da estrada de asfalto do sítio onde moro e não é usada como passagem para lugar nenhum, apenas acesso aos sítios vizinhos. É uma área ainda mais rural do que a minha, porque além da terra na estrada tem vacas, e nada mais rural do que vacas, você há de concordar comigo.

Já passei por aí diversas vezes, estou cansada de conhecer a paisagem, mas acho que em nenhuma das passagens deixei de parar o carro pra dar uma olhada com calma, uma curtida. Aquele ar bucólico, as vacas, as banheiras... Sim, banheiras!



O sitio é de uma família holandesa de produtores de leite, e é óbvio que as vacas são holandesas. Até aí, interessante, bonito de ver, mas sem novidades. O legal mesmo são as banheiras. Dezenas e dezenas de banheiras antigas enfileiradas, uma ao ladinho da outra, servindo de coxo às vacas. Dependendo do horário em que passo as vacas estão comendo ou os coxos estão vazios e as vacas preguiçando no sol ou na sombra - sempre todas juntas. E é nesse momento que a cena fica inusitada. Uma fila de banheiras vazias ao sol, sobre a terra, e um monte de vacas deitadas ao lado.


Eu SEMPRE paro o carro. As vacas me olham, eu olho as vacas… elas devem pensar qual é o problema? Essa moça nunca viu vacas ou nunca viu banheiras?
Depois de alguns minutos eu sigo. Sorrindo. Adoro essas cenas! 

Mais pra frente é menos inusitado mas também é bonito. Até outro dia tinha plantação de sorgo, que agora já está colhido 


e tem um campo permanente de roseiras, já de redinhas nos botões pra que as flores cheguem bonitas na floricultura.


E ontem passei por algo diferente: uma capivara seca e achatada. Não sei como isso foi acontecer, só sei que ela estava lá, no meio da estrada, plana como uma folha de papel.


Depois disso está o terreno da d. Neila. Logo conto sobre ela e seu trabalho árduo com entulho e lixo reciclável. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Cegonha


Ninguém sabe a hora exata, mas no último domingo, 21 de setembro - o dia da árvore! - chegaram no bico da cegonha os bebês sabiá que a gente tanto esperava. Mudamos os hábitos de entrada e saída aqui de casa por causa deles; uma porta foi interditada, uma cortina foi improvisada e até silêncio a gente faz pra não assustar essa familiazinha.

As cascas dos ovos sumiram (mamãe gosta da casa limpinha) e no lugar deles agora crescem essas duas criaturinhas magrelas e ossudas, de penacho nas costas e grandes olhos pretos saltados e ainda fechados.

Ontem eu e D. Sabioca fizemos um trato: todos os dias às 8:30 da manhã ela dá uma saidinha pra esticar as asas e eu rapidinho faço fotos pra registrar o desenvolvimento das crianças. Aí em cima vai a imagem das primeiras 24 horas vencidas, e quando tiver um álbum bem recheado volto para mostrar e deixo todo mundo folhear.

Veja aqui o começo dessa história.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Interditado. Favor usar a outra porta


Interdita-se rua no dia da feira, pra passagem do bloco de carnaval, remendo no asfalto, poda de árvore, reparos na fiação elétrica, troca de lâmpada do poste, quando o piano vai subir pela janela, o viaduto vai ser demolido, quando vai ter show, desfile cívico, corrida de rua, passeata, quando houve acidente de carro, quando vai passar autoridade…

Evento importante é mais do que justificativa e não tem discussão. Portanto, já que Sabioca escolheu meu vaso de samambaia pluma pra produção da filharada da primavera, foi interditada a porta sul desta residência.

Desde segunda-feira dia 8 de setembro a entrada é só dela, já que não conseguiu conviver conosco cruzando pra lá e pra cá pela porta. Durante a confecção do ninho passávamos de fininho, tentando mostrar a ela que suas instalações eram muito bem vindas assim tão próximo das nossas, mas não teve jeito. A moça se estressava e abandonava a obra cada vez que um de nós punha a mão na maçaneta. A escolha do local deve ter sido feita num final de semana, quando quase ninguém entrou nem saiu, mas bastou amanhecer o primeiro dia útil da semana pro ambiente se mostrar menos sossegado do que ela imaginava.

Mas tudo bem, por sorte dela temos outras duas opções de passagem e somos verdadeiros entusiastas da convivência pacífica e harmoniosa entre todos os seres, então passou-se a chave na fechadura e pronto. Só que mãe em período de "gestação"... sabe como é. Mesmo nosso trânsito dentro de casa a assustava, então foi necessária mais uma providência:


Um quadrado de tecido foi pendurado fazendo as vezes de cortina e separando a vida dela da nossa. Uma pena. Agora tenho monitorado à distância os acontecimentos do ninho, e vez ou outra vejo pelo quintal que ela saiu pra se alimentar, então subo num banquinho e espio lá dentro. Por enquanto, só ovos. Dizem os entendidos que são 13 os dias de choca. A conferir, no 20 de setembro.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Primeiros voos


Quatro semanas de Rolinha sob meus cuidados, e depois dos aprendizados de comer papinha na seringa, bicar grãos e quirera e beber água, estamos na fase mais difícil.
Como é que um ser humano ensina uma ave a voar?

O instinto começou a dar nela as primeiras cutucadas, e assim que saía da gaiola para um passeio no escritório a criança era tomada por uma vontade incontrolável de bater as asinhas. Como um helicóptero aquecendo os motores, Rolinha começava a fazer vento em cima da mesa e espalhar a papelada toda no chão. Era bonitinho de ver.

Pra mim essa foi a dica de que estava na hora de começar a estimular pequenos voos. Infelizmente (muito infelizmente!) não tenho condições técnicas de sair voando na frente, então restou chamá-la pra vir nas mãos da mamãe.




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Do dedo para o pauzinho foi um pulo


Depois que as primeiras dificuldades foram resolvidas e a vida entrou no eixos, percebi que estava começando a fase de aprendizagens, então algumas coisas precisavam ser estimuladas para que um dia ela possa viver solta com as outras rolinhas. Resolvi comprar uma gaiola, porque o engradado de plástico é muito fechado e é importante tomar sol. Além disso uma gaiola é mais segura numa casa com gatos e cachorros, e é mais fácil de pendurar nas árvores.

Outra coisa que me fez decidir pela compra foi a questão dos poleiros. Na caixa ela só andava no plano, sobre o jornal, e precisava aprender a se segurar em galhos. Esse treino começou ainda dentro do escritório, quando ela tomava sol na minha mesa num fim de tarde, andando em volta do computador, e agarrou meu dedo com as patinhas.


Logo substituí o dedo pro um lápis de galho e, de tão natural que ela ficou, saquei que era mesmo preciso começar com a oferecer poleiros.


Com a moça em franco desenvolvimento (e por falta de espaço na gaiola) parei com o abajur, mas meu coração de mãe não teve coragem de desligar o calorzinho por completo, então ainda passei algumas noites deixando um tapetinho elétrico ligado embaixo da gaiola. É como uma lâmpada de 50 watts, está escrito nele. Poderia ter sido uma bolsa de água quente, mas o tapetinho estava à mão, então foi assim.

Nesse tempo as peninhas foram ficando cada vez mais penteadas e eu tive a impressão de que já não era mais preciso aquecê-la de noite, então agora só embrulho a gaiola com o cobertor, deixando aberto um lado quase todo.

Quanto à comida, segui as indicações do moço da loja agropecuária e continuei com a papinha na seringa, mas passei a deixar o comedor da gaiola com quirera e grãos variados e um copinho com água, assim logo ela começa a descobrir que tem novidade à disposição. Mas gostoso mesmo ainda é a comidinha da mamãe...


domingo, 26 de janeiro de 2014

Aprendendo a comer e descobrindo a lâmpada


Rolinha foi instalada no escritório - o único lugar da casa livre de gatos - dentro de um engradado de plástico com tampa de tela, e eu fui para o Google, pesquisar como alimentá-la. Santo Google, que tudo sabe, me ensinou que naquela hora, sexta de noite, eu poderia improvisar uma papinha com fubá e água e dar para ela numa seringa de quatro em quatro horas (menos de noite). Ensinou também que os filhotes de rolinha, diferente dos filhotes das outras espécies de aves, não abrem o bico quando a mãe chega de volta ao ninho, por isso é preciso dar uma "forçadinha" com a ponta da seringa até que eles abram as portas pro aviãozinho entrar.

O que não consegui descobrir na internet foi a densidade certa da papinha de fubá, e acabei preparando uma sopinha amarela que no primeiro dia quebrou um galho. Só que no sábado a tarde Rolinha parou de fazer cocô, e isso não é bom sinal em ser vivo nenhum. Daí fiquei com medo de tê-la entupido com o fubá denso demais e fiz duas rodadas de água pura. Também virei o bichinho de bumbum pra cima e descobri uma rolha verde entalada metade pra dentro metade pra fora. Hora de trocar a fralda.

O domingo foi um pouco tenso. Dei sopinha de fubá, água de novo, e pelo menos vi algum cocô no jornal da caixa. Só que era uma coisa muito líquida, uma água verde folha, parecia tinta, bem estranho. E Rolinha cabisbaixa, amuada no cantinho. Na segunda-feira ela amanheceu fria, tremendo, parecia que ia congelar. Corri numa loja agropecuária e voltei não só com a comida certa (ração para pássaro filhote) mas com a proporção de preparo da papinha: uma parte do pozinho amarelo para duas partes de água. Santo Google falhou nesse ponto. Isso dá uma pomada grossa que eu duvidei que entraria na seringa, e diante dela acabei descobrindo que por dois dias lavei a rolinha por dentro com muita água pra pouco fubá, por isso ela não estava bem. Também pode ter sido o ferro e o ácido fólico do fubá de gente, não sei.


Mas aí tudo mudou, porque comida certa é tudo na vida. Na manhã de terça-feira encontrei uma mocinha bem disposta passeando pela caixa e se acocorando perto da cúpula do abajur que ganhou, porque "eu não sou boba não e sei que aqui é mais quentinho". O abajur tem a haste flexível e eu apontei a cúpula para baixo, senão ficaria longe dela e nem caberia dentro da caixa. O escritório parecia um forno, com aquela luz ligada o dia inteiro, mas ela estava achando bom bem perto da lâmpada, então ficou assim.

Lá pela segunda ou terceira noite de abajur ligado me toquei que o escuro é fundamental para descansar, porque pelo menos na gente existe um hormônio do sono que só é liberado quando todas as luzes se apagam, e talvez ela ficasse estressada não tendo noite nunca. Passei então a desligar o abajur quando o sol se punha e a embrulhar a caixa com um cobertor grosso, com medo que ela voltasse a tremer de noite. De manhã desembrulhava a caixa e ligava a luz outra vez.

Com o passar da semana nós duas fomos aprendendo - eu a ser mãe de ave e ela a ser filha de gente. As horas da comida ficaram cada vez mais fáceis: uma seringa de 3 ml que antes demorávamos quarenta minutos pra esvaziar passamos a dar conta em dez, e lá pra quinta ou sexta-feira ela até já abria o bico quando eu chegava perto com a papinha - novidade no mundo das rolinhas. Comia quatro vezes por dia, tomava um pouco de sol da manhã diariamente em cima da mesa do quintal e passava o resto do dia ao lado do abajur ligado. Apesar dos trinta e poucos graus que fazia no sítio a figurinha queria tanto calor que aprendeu a entrar dentro da cúpula pra ficar bem perto da lâmpada. E eu deixei, porque ela estava ali de livre e espontânea vontade e sabia sair, que eu vi.


Continua.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Voltando, e com bebê a tiracolo


Ando recebendo e-mails de leitores querendo saber por onde ando, o que me deixa muito lisonjeada, e dia desses também a querida Carol, do Minhas Plantas, me disse que anda com saudades de mim mas entra no De Verde Casa e só encontra uma lagarta velha de um post do ano passado. "Ju, você não posta mais?"

Sempre explico pra ela (e já repeti mil vezes, coitada), que ando vivendo a angústia de trabalhar nas mudas de árvores pensando que deveria estar no computador, e de trabalhar no computador angustiada por não estar nas mudas. O blog então…

É unanimidade na região que falta mão de obra, e nem precisa ser da especializada, não. Faltam todas, falta qualquer uma. Uns dizem que são os bolsa isso, bolsa aquilo que fazem as pessoas se acomodarem porque já estão ganhando o suficiente para viver. Outros dizem que quem trabalhava no campo foi para o ar condicionado das indústrias e não quer mais pegar pesado sob sol forte. A explicação certa não sei, o fato é que eu, que nunca escolhi trabalho - nem mesmo quando me mudei para a roça -, ando fazendo de tudo para tapar buracos. Até literalmente, quando ando por aí de enxada na mão movimentando terra.

O resultado é que a horta, as experiências ecológicas e a poesia de fotografar a vida em pequenos detalhes ficam para depois, porque o caminhão de substrato atolou na hora de sair do sítio, o flamboyant está quase desabando na casa do funcionário e o homem da motosserra não pode vir antes da chuva, o cano de irrigação do viveiro estourou na hora de desatolar o caminhão, o mecânico não vai mais entregar o carro hoje e… a Cuca pegou uma rolinha que acabou de cair do ninho!

A captura aconteceu quando eu estava quase saindo, com hora marcada, e é sempre assim. Sorte que a cachorra pega de levinho, acho que pra brincar um pouco com o bicho vivo antes de comer. Como aconteceu bem na minha frente, deu tempo de agarrá-la, abrir o focinho à força e salvar a rolinha criança, toda descabelada e molhada de cuspe. Para eu poder sair, a bichinha foi colocada dentro de uma caixa de transporte de gatos, que era a embalagem arejada mais segura que eu tinha, e passou o dia ali ao lado de quirera e um potinho com água, sem saber para que eles servem. Nem um grãozinho foi bicado, nada de água sumiu dali. Várias vezes durante a tarde fui até ela dar olhadinhas rápidas, pensando "mais um que vai morrer na minha mão".

Já salvei inúmeros passarinhos das mais diferentes situações de risco e a maior parte deles morreu. Os sobreviventes foram os que não tinham se machucado nada, encontrados no chão só em choque, com os olhos parados, sem piscar, mas inteiros e respirando bem. Esses, depois de uns minutinhos de uma topada leve no vidro da janela, por exemplo, logo "acordam" do choque e saem voando. Os que batem forte na janela (assunto para um post, um dia) ou passam um minuto na boca dos cachorros ou dos gatos, esses não têm chance. Sempre morrem, por mais que eu me dedique nos cuidados.

Mas dessa vez Rolinha chegou ao fim do dia viva, inteira, respirando bem e me olhando com reservas de lá do fundo da caixa de gatos. O que fazer? Era um filhote, sem dúvidas, e eu não tinha a menor ideia de como cuidar daquele bichinho. Sempre fui dos peludos, não dos penosos, só que dali em diante éramos eu e ela.

Continua.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Com pelos e pintas


No pouco tempo que tem sobrado depois das atividades do plantio de 12 mil árvores, a natureza ainda me manda presentinhos surpreendentes.
Essa veio vestida de oncinha, mas é taturana. E a julgar pelos tufos brancos, longos como os bigodes do felino, trata-se mesmo de uma fera.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Asas, pra que te quero


Passei dois dias observando a mariposa número 1 dentro do borboletário, esperando que ela parecesse um pouco ativa para então soltá-la. Ninguém disse que ela precisaria se mostrar lépida e fagueira para merecer a liberdade, mas ela ali parada o dia todo no mesmo lugar não me dava a impressão de que desejasse ganhar o mundo.

Também tive um pouco de dúvida a respeito da melhor hora para soltá-la lá fora. De dia ou de noite? Como dizem que as mariposas voam à noite, fiquei nesse dilema. Mas uma coisa era certa: dentro do vidro ela estava sem comer (e eu sem saber como alimentá-la) então achei por bem colocar o jardim inteirinho à disposição, para que ela resolvesse isso por si mesma. E me resolvi pelo fim da tarde, assim ainda é um pouco dia mas já vem caindo a noite.

Capturei-a dentro de um copo e fui pra baixo do ipê roxo, não sem antes fazer a foto acima. Foi nesse momento, quando ela abriu as asas, que confirmei se tratar de uma mariposa chamada popularmente de "olho de boi", e de Automeris umbrosa nos livros. Quando está em repouso ela esconde as asas inferiores, mas quando voa (ou se prepara para decolar), se abre toda e mostra dois grandes "olhos" pretos e amarelos bastante característicos da espécie.

Foi bem bonito quando ela entendeu que estava livre e deu duas voltas acima da minha cabeça, antes de escolher um lugar no tronco da árvore para apreciar a nova paisagem. Nova mais ou menos, porque voltou ao jardim de onde saiu lagarta, depois de passar dois meses rodeada pelos livros do escritório. É como a história dos adultos que voltam (transformados) à casa onde nasceram depois de passar um tempo estudando na cidade grande.

No final daquele mesmo dia mais alguém nasceu no borboletário, mas dessa vez com uma história um pouco complicada. Mariposa número 2 teve problemas durante a transformação e saiu da pupa com má formação da asa esquerda. Acontece nas melhores famílias, inclusive na das saturniidae.


Ainda assim a vida continua, por isso, mesmo com sérios problemas para voar ela também foi solta no jardim e vai se virar como pode.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Nasceu!


Eu nem sei se o termo é esse, mas a primeira coisa que consegui dizer foi NASCEU!, ontem, no fim da tarde, quando encontrei essa criatura com asas dentro do borboletário.


Como já era esperado, é alguém completamente diferente daquelas taturanas carnavalescas, listadas de branco e verde limão que viveram dentro do vidro por mais de 60 dias. Por enquanto essa é a única "desencasulada", e o mais estranho é que eu não sei de onde ela saiu, porque conto os casulos e todos continuam aparentemente intactos. 

Talvez ela seja a explicação de uma confusão na contagem que aconteceu nos primeiros dias de borboletário. Me lembro que em algum momento achei que tinha 10 taturanas vivendo ali, mas quando encontrei mais uma no jardim e a levei para dentro do vidro, repeti a contagem e de novo deu 10. É muito pouco provável que tenha acontecido uma fuga, porque o vidro ficou o tempo todo bem fechado, então hoje penso que se todos os casulos estão intactos e apareceu uma mariposa, ela deve ser a sumida que encasulou em algum lugar e eu não vi. É a única explicação.

O fato é que não tive coragem de soltá-la ontem e nem hoje, ainda. E quando amanheceu o dia encontrei uma coisa branca escorrida no vidro onde ela ficou paradinha desde que a descobri. Até agora não a vi voar; está olhando o jardim pela janela, pousada ao lado de onde ficou ontem.


Só que o dia da liberdade tem que ser hoje, porque não sei o que dar para ela comer e nem faz sentido criar uma mariposa no vidro, coitada. É hora de ganhar o mundo. E que venham as outras.

Para acompanhar essa história desde o início, clique aqui e leia os posts de baixo para cima.

terça-feira, 4 de junho de 2013

A visita da jiboia Anaconda


Não que aqui seja muito meio do mato. Na verdade estamos em área até bastante urbanizada, a apenas 3 km do centro da cidade e com pista de asfalto no portão (nem é porteira). Mas como as propriedades do entorno são todas de produção rural, a paisagem ora é milho, ora é soja. Às vezes feno ou trigo, também. E a fauna silvestre que mora por aqui é a que ainda consegue conviver com essas culturas e se alimenta direta ou indiretamente delas. Dos bichos que andam no chão tem siriema, saracura, teiú, cobra...

Era um sábado, e nós estávamos nos preparando pra receber um grupo de ingleses que vinha conhecer a produção de árvores nativas. Aproveitamos a sombra da enorme lichia e arrumamos uma bonita mesa de lanche com sucos coloridos, biscoitinhos de coco, bolo de fubá e arranjo de flores, tudo bem caprichado. Já era quase hora do ônibus chegar com os turistas quando um vizinho parou na pista aqui em frente, ergueu a cabeça por cima da cerca viva e gritou pessoal, vocês vão receber visita!

A primeira coisa que passou pela cabeça foi que em cidade pequena todo mundo sabe tudo, mesmo. Mas e daí que a gente vai receber visita? Isso lá é motivo pra vizinho assuntar por cima da cerca alta, gritando da rua?

Só que ele insistiu e gritou de novo: pessoal, visita!

É que ela vinha chegando. Um pouco menos comprida que um ônibus de turistas, mas serpenteava pelo chão atravessando o asfalto, decidida a entrar aqui. O vizinho vinha passando de carro, reduziu pra não passar por cima dela e sabiamente parou para protegê-la de outros carros e avisar os anfitriões, porque afinal de contas é sempre bom saber que se tem uma hóspede de um metro e meio de comprimento em casa, principalmente em dia de lanchinho para turistas europeus.


Nessa hora bateu um nervoso. Não exatamente pela jiboia, linda, brilhante, o centro do corpo grosso como um abacate, mas porque tudo sempre acontece ao mesmo tempo. E aí, o que fazer?

Mas de novata aqui só tem eu. Flop já passou por isso umas quatro ou cinco vezes nos últimos 30 anos e logo cantou a jogada: você fica aqui vigiando onde ela vai que eu vou buscar um saco e um balde. A gente coloca ela no saco, o saco no balde, tampa, e quando os ingleses forem embora soltamos ela numa matinha perto daqui.

Passei uns minutos ali, olhando aquele bicho bonito andar jardim a dentro. Não deu medo, não. Ela é muito calma, passeia como se a vida fosse só aquilo mesmo: a grama, o sol quentinho, um jardim bonito, uma mesa de lanche...

Veio um saco grande (de farinha da marca Anaconda), um balde de 200 litros, uma pá e uma chapa de metal. Devo dizer que duvidei que ela entraria no saco. A troco de quê? Mas quando a cobra se vê com duas criaturas em volta olhando pra ela, uma chapa de metal de um lado, uma pá do outro e um saco aberto na frente, tipo caverna, acho que pensa que talvez seja melhor se esconder.

Ela colocou a linguinha pra fora, sentindo o cheiro da caverna, e foi entrando. Simples assim.




Foi até o fundo, se enrolou lá dentro com requintes de flexibilidade e relaxou.

Depois de quinze minutos chegaram os ingleses, que conheceram o viveiro, passaram (sem saber) diversas vezes ao lado da cobra ensacada dentro do balde, tomaram lanchinho, bateram muito papo e foram embora elogiando o sítio e nossa simpatia e hospitalidade. Talvez consigam desfazer, mundo a fora, as velhas histórias de que no Brasil a gente é selvagem, anda de canoa, tem cobras em casa...

O dia terminou numa mata junto a um pequeno rio, com a cerimônia de soltura da jiboia batizada de Anaconda. De início ela nem quis sair, mas depois de uns minutos e de uma chacoalhadinha no saco de farinha, pôs a cabeça pra fora, cheirou outra vez com a língua e percebeu a mata. Daí foi.




Logo nos primeiros metros de vegetação densa virou à esquerda e encontrou uma árvore. Depois de um dia diferente, de asfalto, grama, saco de farinha, balde e viagem de carro, Anaconda achou que seria bonito ver o pôr do sol do alto. E subiu.