sexta-feira, 12 de novembro de 2021


A grande questão da invasão de forídeos passou a ser descobrir se eles já haviam se instalado na colmeia ou se todas aquelas sessões de sopro tinham conseguido evitar isso. A estratégia, então, foi fechar as abelhas dentro da caixa no final do dia, quando todas voltaram do campo para passar a noite em casa, levá-las para morar no banheiro, longe da "fonte" de forídeos da mata, e continuar soprando por mais um tempo. Assim, sem que mais nenhum invasor pudesse entrar, seria possível descobrir se eles já nasciam lá dentro.

E infelizmente essa foi nossa conclusão, depois de dois dias de mais invasores do que abelhas dentro da caixa. Eles não paravam de aparecer, eu não parava de matá-los com a raquete, e o banheiro já tinha bichos mortos por todo o chão, além de alguns espremidos nas paredes. Minha rotina já tinha virado de cabeça para baixo, tarefas de trabalho atrasadas começaram a se acumular, as abelhas certamente estavam estressadas, e o pior: agora era certo que o enxame estava realmente em risco. A cada hora que passava mais larvas nasciam, mais alimento das abelhas era comido e a rainha certamente iria perceber essa bagunça e parar de fazer a postura de ovos, o que decretaria o fim da colônia se não fosse revertido a tempo. Porque quando não nascem mais trabalhadores a população vai diminuindo conforme os mais velhos vão morrendo, e o fim se aproxima.

- Então agora você não pode demorar, Juliana. Quanto mais o tempo passa, pior fica, me disse o Cristiano. Você vai ter que fazer a transferência da colônia para uma caixa nova, levando toda a estrutura do ninho das abelhas o mais intacta possível, além de pedaços de cera e batume da caixa antiga para que elas possam construir as estruturas internas das novas instalações. E faça a inspeção de tudo com atenção, para não levar junto ovos, larvas nem forídeos adultos.

Chama desafio, isso, e de vez em quando eu gosto de encarar um deles!
Em poucas horas montei uma bancada cirúrgica em cima do vaso sanitário do banheiro, que naquele momento ganhou o nome de Laboratório, com L maiúsculo. Juntei apetrechos que eu já tinha e mais alguns que imaginei poder precisar:

- uma colher de sopa e uma espátula de pintura dobradas em 90 graus, para suspender o ninho apoiando por baixo
- formão, alicate e chave de fenda para soltar o batume duro das paredes da caixa
- lâminas de cera para ajudar nas novas construções
- potes vazios para guardar mel e pedaços de cera
- rolos de fita crepe larga e estreita
- papel higiênico
- canudinho de soprar forídeos
- copo transparente e lâmina de plástico rígido para pegar abelhas pousadas nas paredes
- uma nova caixa de madeira para a colônia, que por sorte eu já tinha
- um banquinho e um copo d'água para mim, porque não sabia por quanto tempo ficaria trancada no meu novo Laboratório

Avisei marido e o pessoal do sítio que ficaria ali fechada por um tempo, sem poder abrir a porta, mas que eles poderiam falar comigo se precisassem de alguma coisa. E que se eu começasse a demorar demais para sair, eu ficaria feliz se eles me perguntassem se eu estava viva, respirando, hidratada, precisando de comida ou de alguma ajuda.

Revisei minhas ferramentas, fechei a porta do Laboratório, olhei a caixa onde estavam as abelhas, a caixa nova para onde elas iriam e respirei fundo. Naquele momento lembrei da Tamara Klink, de 24 anos, que há poucos dias tinha chegado ao Recife depois de cruzar em solitário o oceano Atlântico, "trancada" num barco de 8 metros de comprimento.
Isso aqui vai ser bico, pensei.

Continua amanhã, no próximo post.

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